Estudos clássicos de ritmo circadiano são, na maior parte, feitos em latitudes do norte. Quando importamos seus achados sem ajuste, perdemos especificidades importantes do contexto brasileiro.

Em janeiro, no Sul e Sudeste, o sol nasce próximo das cinco da manhã. Anoitece perto das oito da noite. Há, portanto, mais de quinze horas de luminosidade. No Norte e Nordeste, a variação sazonal é menor, mas o calor é constante e intenso.

O ritmo circadiano humano é sensível à luz e à temperatura. Essas duas variáveis estão, no Brasil em janeiro, em valores que não aparecem na maioria dos manuais.

O que muda no sono

Dormir em quarto com trinta graus, com sol entrando às cinco da manhã, com noite curta, é prática comum no verão brasileiro. Os efeitos somam-se: sono mais fragmentado, despertares mais frequentes, fase de sono profundo encurtada. Em janeiro, a queixa de cansaço sem motivo aparente é frequente em consultas clínicas. Frequentemente o motivo está no quarto.

O que muda no humor

A relação entre luz e humor é complexa. Transtorno afetivo sazonal de inverno é bem documentado em populações nórdicas. Existe também um análogo de verão, menos estudado. Em populações tropicais, há indícios preliminares de que excesso de luminosidade em verão extremo pode estar associado a piora de sintomas em quadros de transtorno bipolar e em insônia crônica.

A pesquisa brasileira sobre isso é escassa. Há grupos em São Paulo, em Pelotas, em Ribeirão Preto começando a olhar. Dados sólidos talvez estejam disponíveis em 2027 ou 2028.

O que muda na cognição

A literatura sobre temperatura e desempenho cognitivo é mais consolidada. Quedas mensuráveis em tarefas de atenção sustentada, memória de trabalho e tomada de decisão tendem a aparecer em ambientes quentes e sem ventilação adequada, e se acentuam conforme a temperatura sobe. Janeiro brasileiro vive boa parte do dia em faixas de calor que pesam sobre esse desempenho.

Para a clínica: pacientes que reportam dificuldade cognitiva em janeiro podem estar descrevendo efeito ambiental, não exacerbação de quadro psi. A distinção importa para o plano terapêutico.

O que isso recomenda

Para os Scribas e leitores deste portal que atendem clinicamente: vale incluir no protocolo de janeiro uma pergunta sobre condições do sono. Vale pensar duas vezes antes de atribuir piora cognitiva exclusivamente a sintoma psi quando o ambiente fala alto.

Para a pesquisa brasileira: há campo aberto. Quem estiver pensando em projeto de doutorado ou mestrado em neurociência circadiana com recorte tropical pode contribuir para literatura ainda escassa.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.