Todo ano, na sexta-feira anterior ao equinócio de março, em 2026, dia 13, o Dia Mundial do Sono reúne campanhas, posts de divulgação científica e recomendações bem-intencionadas sobre higiene do sono. Oito horas, rotina regular, telas fora do quarto. A lista é conhecida. O que aparece menos nessa conversa é a pergunta mais honesta: para quem esse conselho foi feito?
A pesquisa sobre sono, como boa parte da neurociência, tem um problema de amostra. Os estudos clássicos foram conduzidos majoritariamente em populações de países do Norte global, em laboratórios com controle de temperatura, luz e ruído que não descrevem o cotidiano de um trabalhador da periferia de Fortaleza ou uma mãe solo em São Paulo. Quando importamos recomendações sem esse ajuste, corremos o risco de transformar achados científicos em prescrições de classe.
O que a biologia do sono de fato confirma
Existem aspectos do sono humano que parecem atravessar contextos: a arquitetura em ciclos, com alternância entre sono leve, profundo e REM; a função restauradora do sono profundo para processos como consolidação de memória e limpeza metabólica cerebral; a sensibilidade do sistema à luz, ao calor e ao ritmo social. Isso é robusto.
O que é mais delicado são os números. "Oito horas" é uma média, e médias, por definição, ocultam variação. Há indícios de que necessidades individuais de sono variam de forma relevante, e que fatores como genética, idade, condição de saúde e até latitude geográfica influenciam quanto cada pessoa precisa. No contexto brasileiro, onde o calor noturno prolongado, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, interfere na qualidade do sono, essas variações ganham uma dimensão territorial que raramente aparece nos guias clínicos.
O sono como questão de desigualdade
Existe uma dimensão política no sono que merece ser dita com todas as letras: dormir bem é, em parte, um privilégio. Não porque as pessoas pobres sejam biologicamente diferentes, mas porque as condições materiais do sono, silêncio, temperatura, cama adequada, ausência de turnos noturnos compulsórios, segurança no entorno, distribuem-se de forma profundamente desigual.
A literatura em epidemiologia do sono tem acumulado evidências de que populações em situação de vulnerabilidade social apresentam maior prevalência de distúrbios do sono. Insônia, sonolência diurna excessiva, apneia não tratada, essas condições aparecem com mais frequência em contextos de maior precariedade. E a relação é bidirecional: o sono ruim agrava condições de saúde mental e física que, por sua vez, tornam o sono ainda mais difícil.
O que o outono que se aproxima muda
Março, no Brasil, marca o início do outono, e com ele, a mudança gradual na quantidade de luz disponível. Nas regiões Sul e Sudeste, essa mudança é perceptível: o anoitecer chega mais cedo, as manhãs ficam mais frias, a luminosidade total do dia diminui. Para o sistema circadiano, isso é um sinal relevante.
Em populações de alta latitude, a variação sazonal de luz está associada a mudanças no humor e no sono com certa regularidade. No Brasil, essa variação é bem menos pronunciada, especialmente nas regiões equatoriais, mas ela existe, e seus efeitos cognitivos e emocionais merecem atenção clínica, especialmente em pessoas que já apresentam vulnerabilidade ao transtorno depressivo.
O Dia Mundial do Sono é uma boa oportunidade, portanto, não apenas para celebrar o que a ciência descobriu, mas para fazer a pergunta que a ciência ainda não respondeu bem: como dorme o Brasil real? E o que precisaríamos mudar, não só nos hábitos individuais, mas nas condições coletivas, para que a resposta fosse melhor.
Para quem atende
Na clínica e no ambulatório, março tende a ser um mês em que queixas relacionadas ao sono aparecem com mais frequência. A retomada plena da rotina após o verão, a mudança de luz, o cansaço acumulado desde o início do ano, tudo isso converge. Vale perguntar diretamente sobre qualidade do sono nas avaliações, sem assumir que a queixa virá espontaneamente. E vale, também, resistir à tentação de reduzir a resposta clínica a uma lista de recomendações de higiene do sono, necessária, mas insuficiente quando o problema tem raízes que a biologia sozinha não explica.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.