Existe uma sentimentalidade em torno do Dia das Mães que a psicanálise não compartilha, não por cinismo, mas por respeito. Porque o que acontece entre uma criança e sua figura materna é demasiado complexo, demasiado formativo, para caber na moldura da comemoração. A mãe boa, a mãe amorosa, a mãe sacrificada: esses são personagens. A função materna é outra coisa.

Winnicott, psicanalista britânico que dedicou boa parte de sua obra ao universo materno-infantil, cunhou a expressão "mãe suficientemente boa" com uma precisão que vale recuperar. Não a mãe perfeita. Não a que antecipa cada necessidade e nunca falha. A que é boa o suficiente, que responde, que se atrasa, que repara, que suporta a frustração do bebê sem desmoronar e sem se punir demais por ter falhado.

O que a função materna faz

A função materna, que pode ser exercida por qualquer pessoa que ocupe esse lugar primordial de cuidado, tem pelo menos três dimensões que a psicanálise considera formativas.

A primeira é a de suporte: o bebê nasce completamente dependente, sem aparato psíquico para elaborar suas próprias experiências. É o cuidador que, ao nomear, ao segurar, ao responder, vai gradualmente emprestando estrutura ao que ainda não tem forma. Não é exagero dizer que o psiquismo inicial é, em parte, emprestado do Outro materno.

A segunda é a de espelho. Winnicott descreveu como o rosto da mãe funciona, nos primeiros meses de vida, como o espelho onde a criança começa a ver a si mesma. Se a mãe responde ao bebê com presença, o que reflete de volta é o próprio bebê, a criança encontra lá um esboço de si. Se a mãe está ausente, deprimida, ou respondendo ao bebê com seu próprio estado interno sem modulação, o que a criança encontra no espelho é o estado da mãe, não o seu próprio.

A terceira é a da transmissão do desejo. Lacan apontou que a criança não nasce num vazio, nasce num campo de desejo que precede sua chegada. O modo como a figura materna deseja (ou não deseja) a criança, como a nomeia, como a situa em sua fantasia, tem efeitos constitutivos sobre o sujeito que vai se formar.

Quando falta e quando excede

Na clínica, os dois extremos aparecem com frequência. A ausência materna, seja por abandono, por depressão grave, por violência ou por circunstâncias sociais que impossibilitaram o cuidado, deixa marcas que tendem a aparecer como dificuldade de regulação afetiva, de confiança básica nos outros, de senso de continuidade do self.

O excesso, o cuidado que não abre espaço para a separação, que responde antes mesmo que a necessidade seja formulada, que não suporta que a criança se afaste, tem efeito diferente, mas igualmente formativo. O sujeito criado nesse excesso pode ter dificuldade em tolerar a frustração, em desenvolver autonomia, em se constituir como separado.

O que o Dia das Mães pode provocar

Para muitos pacientes, o segundo domingo de maio não é festa, é detonador. Ativa luto por uma mãe que morreu, raiva por uma mãe que feriu, culpa por uma relação que não conseguiu ser diferente. Ativa também, por vezes, a questão no próprio sujeito que é mãe: "estou sendo boa o suficiente?"

Não há resposta universal. Mas há uma pergunta que vale fazer, clínica e humanamente: o que você precisou que não recebeu? E o que recebeu que não pediu e que ainda carrega? Essas perguntas, feitas com cuidado, abrem mais do que qualquer saudação.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.