Janeiro chega, e com ele o ritual social das resoluções. Lacan teria interesse em observar o ritual, ainda que talvez sem ânimo de fazer resolução própria.
O desejo, em Lacan, não é objeto a se atingir. É falta estrutural. Confundir desejo com vontade de mudar comportamento é confundir dois registros. A indústria de janeiro mistura os registros com lucro previsível.
O que o paciente diz
Em janeiro, o divã recebe pacientes que enunciam querer mudar. Querer parar de beber, querer parar de procrastinar, querer parar de procurar o ex em redes sociais. O analista escuta esse querer com cuidado, porque sabe que ele pode dizer várias coisas distintas.
Pode dizer demanda direcionada ao analista: cure-me. Pode dizer identificação com discurso social que cobra mudança. Pode dizer, raramente e com mais valor, posição subjetiva de quem efetivamente quer rever algo seu.
O que Lacan ensina
Não atender a demanda imediata é parte do trabalho. Não no sentido frio, mas no sentido de sustentar espaço para que outra coisa possa dizer. O paciente que entra em janeiro pedindo plano de ação para resolução de ano novo está, frequentemente, querendo que o analista resolva por ele.
Sustentar a falta. A frase é de Lacan e parece dura. No consultório, ela vira: ouvir com atenção o que sustenta o pedido, sem entregá-lo de pronto.
O que pode caber em peça curta
Esta peça é breve, propositadamente. Janeiro é mês em que o discurso comportamental ocupa muito espaço. Quem trabalha com clínica psicanalítica conhece a tentação de se posicionar contra. Resistir à tentação também é trabalho. Não para concordar, mas para não devolver a polêmica em vez de pensar.
A análise segue, em janeiro como em qualquer mês. O paciente trabalha. O analista trabalha. O desejo segue sendo o que é, em ritmo próprio.
Bom janeiro a quem está em análise. Bom janeiro a quem analisa.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.