Existe uma pergunta que raramente aparece nos congressos, nas supervisões formais ou nas celebrações de categoria: o que sustenta o analista? Não em sentido financeiro, embora esse também seja um debate necessário. A pergunta é mais funda: o que faz uma pessoa escolher, dia após dia, sentar diante do sofrimento alheio e oferecer escuta, quando poderia simplesmente ouvir e ir embora?

Lacan formulou isso com uma expressão que ficou, o "desejo do analista". Não é desejo de curar, nem de agradar, nem de ser admirado pelo paciente. Na formulação lacaniana, trata-se de um desejo de diferença, de que algo do sujeito se mova, de que a palavra produza algo no outro. Um desejo sem objeto fixo, por isso mesmo difícil de sustentar. Quando esse desejo se fecha num objetivo (livrar fulano da depressão, arrancar uma insight, fazer o paciente agradecer), a clínica vira outra coisa: intervenção, pedagogia, às vezes violência sutil.

Digo isso sem idealismo. O analista também tem seus pontos cegos, seus cansaços, sua contratransferência batendo na porta. Mas há algo de específico na posição que a psicanálise propõe, e vale a pena nomear o que é.

Ouvir não é escutar

A diferença entre ouvir e escutar é mais do que jogo de palavras. Qualquer pessoa ouve: o barulho da rua, a reclamação do vizinho, o relato do paciente que chega angustiado. Escutar exige outra postura, o que Freud chamou de atenção flutuante, um estado em que o analista não prende o foco num ponto específico do discurso, mas deixa a própria atenção se mover livremente, receptiva ao que está sendo dito nas bordas, no que tropeça, no que o paciente repete sem perceber.

Essa flutuação não é distração. É, paradoxalmente, uma forma de atenção mais intensa, porque exige que o analista suspenda seus próprios julgamentos, suas antecipações diagnósticas, sua pressa de chegar a alguma conclusão. É o contrário do que a maioria dos contextos de conversa exige. Num mundo que valoriza respostas rápidas e certezas visíveis, sentar em silêncio e deixar o outro falar, sem interromper, sem aconselhar, sem normalizar, é um ato que parece simples e é radicalmente difícil.

O que sustenta esse estado não é força de vontade. O analista que se mantém apenas pela disciplina vai ficando oco. A clínica psicanalítica pressupõe que o próprio analista passou pela experiência de ser analisado, de ter estado do outro lado. Não como ritual de iniciação, mas porque é difícil ofertar uma posição de escuta sem ter tido, em algum momento, a experiência de ser escutado.

O peso de guardar o que não se conta a ninguém

Há uma dimensão do ofício que fica de fora das conversas de corredor: o que o analista faz com tudo que escuta. A ética da confidencialidade é inviolável, mas o peso do que se ouve, em supervisão, em análise pessoal, em algum momento precisa encontrar lugar.

Isso não é fraqueza. É a honestidade sobre o custo real da posição. Há um corpo de pesquisa sobre sofrimento vicário entre profissionais de saúde mental que aponta, de forma consistente, que a exposição sistemática ao sofrimento alheio, sem espaços de elaboração, tem efeitos. A psicanálise, ao tornar a análise pessoal parte da formação, talvez tenha lidado com esse problema à sua maneira muito antes de ele ganhar esse nome na literatura. O analista que não cuida de si depressa passa a reagir ao paciente, ao invés de escutá-lo.

Bion descreveu algo próximo quando falou da necessidade de o analista tolerar a incerteza, a não-compreensão imediata, sem recorrer prematuramente a uma interpretação que alivie mais o seu próprio desconforto do que o do paciente. A capacidade negativa, ele chamou, emprestando o termo do poeta Keats: estar no estado de dúvida e mistério sem irritação diante da incerteza. Não é uma qualidade natural. É cultivada, muitas vezes a duras penas, ao longo de uma carreira.

O que a semana da profissão não celebra

O Dia do Psicólogo tende a ser ocupado por imagens de afeto e cuidado, o que tem seu valor. Mas há uma pergunta mais específica, do lado de dentro da posição, que a data raramente faz: o que corrói o desejo de escutar quando ele é submetido ao desgaste? Não falo aqui das condições materiais do trabalho, que merecem debate próprio. Falo do que acontece dentro da escuta quando o analista atende no automático: a atenção deixa de flutuar e passa a caçar a resposta rápida, a interpretação vira atalho para encerrar o desconforto, o silêncio incomoda mais do que sustenta. O desejo não morre de uma vez. Ele se estreita, vira rotina, e o analista é o último a perceber.

O desejo do analista, como formulou Lacan, não é um estado natural: é uma posição que precisa ser continuamente relançada. E para ser relançada, precisa de algo que a técnica não fornece sozinha: análise pessoal ativa, onde o próprio analista continua ocupando o lugar de quem fala; supervisão que não seja só discussão de caso, mas espaço para escutar o que a clínica mexe em quem a conduz; alguma comunidade de pares onde se possa dizer, sem vergonha, que um caso está pesando. Sem isso, o que se oferece ao paciente aos poucos deixa de ser escuta e vira resistência mal disfarçada de técnica.

Talvez o melhor que a psicanálise ensina ao próprio analista seja isso: o sujeito também está em falta. Inclusive o sujeito que escolheu a profissão de escutar os outros. Reconhecer essa falta não enfraquece o ofício, ela o honra.

A semana começa com uma data de celebração. Que seja também de pergunta: como está quem escuta?

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.