Há algo de curioso no modo como o Carnaval é narrado antes de acontecer. "Esse ano vai ser diferente", diz o sujeito, com uma convicção que não precisa de argumento. A promessa de descarga total, do corpo, das inibições, do cotidiano, tem uma estrutura que a psicanálise conhece bem: é a estrutura da fantasia. E toda fantasia, quando encontra o real, tropeça.
Não estou falando que o Carnaval é ilusão. Estou dizendo que ele é, também, um dispositivo de gozo, e que o gozo, em sentido lacaniano, não se confunde com prazer. Prazer é regulado, tem limite, desvia do excesso. Gozo é justamente o que ultrapassa esse limite, o que insiste onde o sujeito achava que encontraria satisfação e encontra, em vez disso, uma repetição estranha.
A festa e o excesso
O Carnaval suspende temporariamente a lei, não a lei penal, mas a lei simbólica que organiza os papéis, as distâncias, as máscaras sociais do dia a dia. É o que os antropólogos chamam de liminaridade: um tempo fora do tempo, onde o que estava proibido é, provisoriamente, autorizado. Essa suspensão tem um efeito liberador real. Não nego.
Mas ela tem também um efeito de retorno. Quando a quarta-feira de cinzas chega, e a folia que era para durar sempre durou apenas alguns dias, o sujeito precisa renegociar com o que ficou. Por que a promessa de satisfação plena não se cumpriu? Por que, no meio da multidão e da música, houve um momento de estranheza, de solidão inesperada?
A resposta psicanalítica não é moralizante. Não se trata de dizer que a folia é "demais". Trata-se de observar que o sujeito é constituído por uma falta estrutural, aquilo que Lacan nomeou como castração simbólica, e que nenhuma experiência de excesso preenche essa falta. Ela pode ser velada, deslocada, esquecida por um tempo. Mas retorna.
O que o paciente traz depois da folia
Na clínica, é bastante comum que fevereiro e março tragam sessões marcadas por uma espécie de ressaca existencial. Não apenas o cansaço físico da festa, mas algo mais difuso: uma sensação de que "deveria ter sido mais", ou de que "não consigo aproveitar como os outros". Esse segundo registro é particularmente revelador.
Quando o sujeito se compara ao gozo imaginado do outro, aquele que "realmente" se divertiu, que "realmente" viveu o Carnaval, ele está diante do que Lacan chamava de objeto a em sua função de causa do desejo. O que atrai não é a festa em si, mas a promessa de que no outro há um gozo que a mim falta. Essa é a estrutura da inveja, mas também do desejo: sempre mediado, sempre em relação a algo que escapa.
O analista não toma partido, nem pelo gozo nem pela abstinência. Mas escuta com atenção o modo como cada sujeito se relaciona com o excesso. Há quem não possa entrar na festa: o gozo está bloqueado por uma culpa que antecede qualquer transgressão. Há quem não consiga sair: a repetição do excesso funciona como tapamento de uma angústia que, a cada intervalo, reaparece.
Depois da cinza
A quarta-feira de cinzas tem, para a tradição cristã, o sentido do memento mori, lembra-te de que és pó. Há algo de verdadeiro, do ponto de vista psicanalítico, nessa imagem. O fim da festa é um dos poucos momentos em que o sujeito é confrontado com o que não conseguiu obter, com o que não experimentou, com a versão de si mesmo que ficou de fora.
Esse confronto pode ser produtivo. Não como culpa, mas como interrogação. O que eu queria, afinal? O que esse excesso encobria? A psicanálise não é inimiga do Carnaval, é, digamos, sua leitora mais persistente. A que fica depois que a multidão se dispersa, ouve o silêncio, e pergunta: o que foi que aconteceu aqui?
Se você atende e percebe que seus pacientes chegam em março com esse sabor amargo de festa que não foi suficiente, vale não apressar a explicação. Às vezes, a pergunta sobre o que faltou é o próprio começo do trabalho.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.