Tem um paciente que me diz, toda semana, que não consegue dormir. Fica na cama, fecha os olhos, e pensa. Pensa no que disse, no que deveria ter dito, no que vai ter que fazer, no que poderia dar errado. O pensamento roda sem parar, como uma máquina que alguém esqueceu de desligar. Pergunto: e quando você finalmente adormece, o que acontece? Ele diz: "Acordo cansado."

A insônia crônica é um fenômeno cada vez mais presente na clínica brasileira. Não vou fabricar números, mas é razoável dizer que ela está entre as queixas mais frequentes que chegam ao consultório, frequentemente associada a ansiedade, sobrecarga de trabalho e o ritmo acelerado da vida urbana. O que me interessa, aqui, não é a insônia como sintoma médico, para isso, há neurologistas e psiquiatras competentes. O que me interessa é o que ela diz sobre o sujeito que a padece.

A angústia que não encontra objeto

Freud distinguiu o medo da angústia de modo que permanece útil. O medo tem objeto: tenho medo de algo específico. A angústia não tem, é um afeto flutuante, sem objeto determinado, que se instala como uma ameaça que não consegue ser nomeada. E é exatamente esse indeterminado que torna a angústia tão difícil de manejar.

A insônia, em muitos casos, é o lugar onde a angústia se instala. O sujeito que fica acordado pensando "em tudo" é, muitas vezes, o sujeito que não encontrou, durante o dia, um espaço para se encontrar com o que o perturba. O dia foi preenchido, trabalho, tela, obrigações, consumo de informação, e a noite fica com o resto: o que não foi elaborado, o que não encontrou palavras, o que ficou suspenso.

Sono e sujeito barrado

Há uma dimensão simbólica no sono que raramente é discutida. Adormecer implica, de certa forma, soltar o fio do discurso consciente, deixar que algo ocorra sem supervisão do eu. Para sujeitos com uma estrutura rígida de controle, isso pode ser vivido como ameaça. O relaxamento se torna perigoso porque o eu, nessas estruturas, é construído sobre a vigilância permanente.

Não é à toa que a insônia seja tão mais prevalente em pessoas que carregam muita responsabilidade, real ou fantasiada. O gestor que "não pode errar", a mãe que se sente responsável por tudo, o estudante que acredita que qualquer pausa é perda de tempo. Há uma relação direta entre a impossibilidade de delegar e a impossibilidade de dormir.

A psicanálise não oferece técnica de relaxamento. Mas oferece algo que, a longo prazo, pode ser mais eficaz: a possibilidade de interrogar o que sustenta essa posição de vigia. De onde vem a convicção de que só eu posso garantir que as coisas não desabarão? O que aconteceria se eu deixasse de estar alerta?

O que acontece na clínica

Quando trabalho com pacientes insones, uma das perguntas que faço, não imediatamente, mas quando o vínculo já permite, é: o que você pensa quando fica acordado? Qual o conteúdo desse ruminar noturno?

As respostas costumam ser reveladoras. Não porque a interpretação do sonho resolva a insônia (isso seria mágico pensamento), mas porque o tema do ruminado é quase sempre o mesmo: culpa, responsabilidade excessiva, antecipação de catástrofes, relações que não foram elaboradas. São os temas do sujeito, e o sono se recusa a vir enquanto esses temas não encontrarem alguma forma de circulação.

O Dia Mundial do Sono serve para lembrar que descansar não é fraqueza. Para a psicanálise, dormir bem é, também, poder confiar que o mundo continua sem você no comando. Essa confiança não se compra nem se prescreve. Se constrói, às vezes devagar, às vezes no meio de um trabalho analítico que demora anos. Mas vale.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.