Há um momento específico, que quem escuta em consultório costuma reconhecer, em que o paciente entra depois de semanas de afastamento e diz, quase sempre com uma leveza que é ao mesmo tempo alívio e embaraço: "Pois é, voltei." A palavra "voltei" carrega mais peso do que parece. Não anuncia apenas o retorno do corpo a uma cadeira. Anuncia o retorno a si mesmo, ao circuito de demanda e insatisfação que a vida cotidiana sustenta, ao espaço onde o sujeito é convocado a saber algo sobre o que o move.

Fim de julho. O recesso coletivo, escolar e de muitos consultórios, começa a ceder. A cidade recobra um ritmo. E o que se observa, tanto na clínica quanto fora dela, é que esse retorno provoca um mal-estar particular: não é a tristeza de um luto, não é exatamente ansiedade, é algo que se parece com um estranhamento de si. Como se a pessoa que volta das férias não coubesse bem no lugar que deixou.

O que a pausa suspende

Freud observou, em diferentes momentos de sua obra, que a vida civilizada exige uma renúncia contínua à satisfação pulsional. Essa renúncia não é neutra: ela deixa um resíduo, algo que não se dissolve no trabalho, nas relações, nos rituais do cotidiano. A rotina não elimina o mal-estar; ela o organiza, dá a ele uma forma suportável. O que a pausa faz, às vezes, é romper essa organização. Sem a estrutura do dia a dia, o sujeito se vê diante de uma pergunta que a rotina eficientemente emudece: o que eu quero?

A questão parece simples. Não é. O desejo, em sentido psicanalítico, não é o mesmo que vontade ou preferência. Ele se constitui precisamente na falta, naquilo que escapa à satisfação plena. Quando as férias chegam prometendo plenitude, descanso total, realização do que faltava durante o ano, colocam o sujeito num impasse: se o que falta é estrutural, não há férias que resolvam. E a volta, então, carrega também a frustração desse encontro, a percepção de que a interrupção não trouxe o que prometia.

A repetição que a retomada reativa

Lacan trabalhou a noção de repetição a partir de Freud, apontando que o sujeito não repete porque gosta, mas porque a repetição está a serviço de algo que ele não consegue nomear diretamente. O retorno à rotina, com seus horários fixos, seus compromissos previsíveis, seus pequenos rituais, é também um retorno à repetição. E a repetição, por mais desgastante que pareça, tem uma função: ela mantém o sujeito no campo do possível, no espaço onde o gozo é regulado, contido, tornado suportável.

O problema aparece quando a pessoa volta das férias esperando estar "diferente". Esperando ter descansado o suficiente para que o cansaço anterior não retorne. Esperando que a distância do trabalho tenha reconfigurado sua relação com ele. Quando nada disso acontece, e o mesmo e-mail, a mesma reunião, o mesmo colega difícil, estão todos exatamente no lugar onde foram deixados, a decepção tem um nome clínico: é o encontro com a estrutura. Com o fato de que o problema não estava na ausência de férias, mas em algo que as férias não tocam.

O gozo da rotina e o que ele cobre

Há uma dimensão de gozo no trabalho que raramente se nomeia como tal. Não é prazer, exatamente: é o que Lacan chamaria de gozo, uma satisfação opaca, disfarçada de obrigação, que o sujeito encontra na repetição de suas tarefas. Quem trabalha compulsivamente não está, necessariamente, sendo explorado de fora para dentro: há ali algo que diz respeito à sua relação com a falta. O trabalho preenche, ocupa, oferece um circuito de demanda e resposta que o desejo sozinho não provê.

Quando esse circuito é interrompido pelas férias, alguns pacientes relatam o que parece paradoxal: o descanso os cansa mais do que o trabalho. Não conseguem "desligar". Ficam inquietos. Sentem que estão desperdiçando o tempo livre porque não sabem bem o que fazer com ele. O que está em jogo, ali, não é preguiça nem dificuldade de relaxar, é a ausência do circuito que organizava o gozo. Sem o trabalho, o sujeito se depara com uma liberdade que ninguém o ensinou a habitar.

O que o analista escuta em agosto

Na clínica, as primeiras sessões depois do recesso têm uma qualidade particular. O relato das férias costuma oscilar entre o bom que foi e o que não funcionou como esperado, e há, às vezes, uma resistência a falar, como se o paciente precisasse de alguns encontros para voltar a confiar que aqui também é um lugar onde algo pode acontecer.

O que me interessa, nesses retornos, é menos o conteúdo do relato das férias do que a forma como o paciente se relaciona com o fato de estar de volta. Há quem volte aliviado, como se o cotidiano fosse um abrigo. Há quem volte com uma angústia mal-disfarçada, carregando a sensação de que perdeu algo nas semanas que passou longe. Há quem volte diferente de fato, porque algo aconteceu no afastamento, não um evento externo, mas um deslocamento interno que a pausa possibilitou.

Esse último caso, aliás, é o que mais me interessa como analista. A pausa que funciona não é a que elimina o problema: é a que oferece uma distância suficiente para que o sujeito possa olhar para o que estava próximo demais. Às vezes, as férias fazem isso. Às vezes, não. E quando não fazem, o consultório que se reabre em agosto é o lugar onde esse trabalho pode, finalmente, começar.

O que a rotina não resolve e a análise pode tocar

O retorno à rotina não é o fim do recesso: é o começo de outra coisa. A pergunta que a volta das férias coloca, e que raramente se articula diretamente, é: o que eu faço com o que sei agora, depois da pausa? Se a pausa trouxe algum vislumbre, mesmo que incômodo, sobre o que estava funcionando mal, sobre o que o sujeito não quer mas segue fazendo, sobre o que falta e que nenhuma agenda preenche, então o retorno é uma oportunidade.

A psicanálise não promete descanso. Promete, quando funciona, que o sujeito pode aprender algo sobre o que o move, e talvez, com isso, construir uma relação um pouco menos compulsiva com a repetição que o constitui. Ou seja: não que as férias deixem de cansar, nem que o trabalho perca seu peso. Mas que o sujeito, de volta, saiba um pouco mais sobre por que volta, e o que busca quando busca o descanso que nenhum descanso entrega.

Voltou? Bem-vindo. O trabalho está esperando, e não é o da agenda.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.