Toda segunda semana de junho, o Brasil celebra o amor com flores, jantares e mensagens que tentam dizer em palavras o que as palavras nunca alcançam completamente. O Dia dos Namorados, criado aqui com data própria, distinta do Valentine's Day do hemisfério norte, é uma data curiosa: mobiliza afeto verdadeiro e marketing ao mesmo tempo, mistura o íntimo com o comercial de um jeito que só o Brasil sabe fazer. E é justamente nessa ambivalência que a psicanálise encontra seu lugar.
Não venho aqui desmontar a festa. Venho propor que a gente olhe para ela com os olhos abertos.
O amor como problema, não como solução
Freud nunca foi romântico no sentido corriqueiro da palavra. Para ele, amar é sempre um ato arriscado: o sujeito investe libido em outro ser, em outro objeto, e fica, portanto, vulnerável. A dependência não é fraqueza moral, é estrutura. Quem ama se expõe. E se expor dói, eventualmente.
Essa constatação não é pessimismo, é clínica. Quantas pessoas chegam ao consultório com o coração partido não por falta de amor, mas por excesso de expectativa sobre o que o amor deveria fazer por elas? A fantasia de que o amor basta, que ele resolve, que ele completa, é muito sedutora. E a data de 12 de junho alimenta essa fantasia com capricho.
Lacan foi mais longe nessa direção. Para ele, amar é dar o que não se tem a quem não é. A frase parece abstrata, mas quem já ficou esperando que um presente, um jantar ou uma declaração pública "provasse" o amor do outro sabe exatamente do que estamos falando. Há sempre uma assimetria no amor. Nunca amamos e somos amados da mesma forma, no mesmo ritmo, com a mesma intensidade. E isso não é falha de relacionamento. É a condição do amor humano.
O desejo não é o mesmo que o amor
Aqui está uma distinção que faz diferença no consultório e que o senso comum frequentemente embaralha. O desejo, em Lacan, é sempre desejo de outra coisa. Ele desliza, nunca se fixa completamente. Quando se fixa demais, estamos falando de outra coisa, talvez de demanda, talvez de captura.
O amor, por sua vez, é o que acontece quando o sujeito reconhece o outro em sua alteridade, quando suporta que o outro não seja apenas prolongamento do próprio desejo. Amar o outro de verdade é, de certo modo, tolerar que ele escape.
Essa distinção tem implicações práticas. Muita angústia de casal que vejo na clínica não é falta de amor, é confusão entre amar e possuir. O ciúme excessivo, o controle, a necessidade de que o outro esteja sempre disponível e sempre igual são sintomas de que o desejo não encontrou, ainda, o outro como sujeito separado. Não é maldade. É estrutura que pede elaboração.
O que a data pode e o que ela não consegue
Não sou contrário ao Dia dos Namorados. Rituais afetivos importam. A data cria um pretexto para que o casal saia da rotina, para que palavras não ditas sejam ditas, para que o outro seja visto de novo. Isso tem valor.
O problema começa quando a data vira régua. Quando o presente certo, o jantar perfeito ou a foto no Instagram passa a funcionar como prova do amor, como demonstração que o outro precisa dar para que o primeiro se sinta amado de fato. A lógica da prova é uma armadilha: ela nunca fecha, porque a falta que o amor promete tampar está no sujeito, não no outro.
Na prática clínica, o pós-Dia dos Namorados às vezes traz mais casais ao consultório do que o mês anterior. Não porque a data destruiu algo, mas porque evidenciou o que já estava lá. A expectativa não foi correspondida. O jantar aconteceu, mas a sensação de ser visto, amado, escolhido, não chegou. E aí a pergunta que o sujeito raramente consegue formular sozinho emerge: e agora?
O amor como construção
A psicanálise não oferece fórmula. Oferece, talvez, uma coisa mais incômoda: a possibilidade de cada um se perguntar o que está, de fato, buscando quando busca amor. Que falta está tentando tampar? Que imagem do outro está projetando em vez de enxergar o outro real?
Winnicott diria, à sua maneira, que a capacidade de estar só, de não precisar do outro o tempo todo, é pré-condição para amar com alguma saúde. O amor que sufoca nasce, muitas vezes, de uma solidão que não foi elaborada.
Não é uma mensagem reconfortante para um dia de flores. Mas é uma mensagem útil para quem quer construir algo que dure para além do menu de degustação.
O consultório, neste sentido, é o lugar onde o amor pode ser examinado sem romantização e sem cinismo. Onde a pessoa pode descobrir que o que ela chama de amor às vezes é controle, às vezes é medo, às vezes é mesmo amor, com toda a vulnerabilidade que isso implica.
Trinta anos atendendo casais me ensinaram que o amor não é o que as músicas dizem. É mais complicado, mais real e, por isso mesmo, muito mais interessante.
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