Em 1978, Franco Basaglia e seus colaboradores italianos demonstraram algo que parecia impossível: era viável tratar transtorno mental grave sem manicômio. O movimento que se seguiu, a psiquiatria democrática, a reforma psiquiátrica, a luta antimanicomial, chegou ao Brasil e encontrou aqui solo fértil e também resistência feroz. A Lei 10.216, de 2001, é o marco jurídico dessa luta. Mas leis não constroem cultura sozinhas.
Em maio de 2026, às vésperas do Dia da Luta Antimanicomial (18/05), vale perguntar: o que a psicanálise tem a dizer a esse movimento, e o que precisa aprender com ele?
O que a psicanálise ofereceu
A psicanálise participou, de modo não linear, da crítica ao modelo manicomial. A denúncia do saber-poder médico que Foucault articulou com precisão filosófica foi, em muitos casos, alimentada por clínicos que vinham da tradição psicanalítica. A ideia de que o louco tem um dizer, que o delírio não é ruído, mas discurso que merece ser escutado, é profundamente psicanalítica.
Lacan, em sua leitura do caso Schreber, tratou a psicose não como déficit ou degeneração, mas como uma outra estrutura de relação com a linguagem e o real. O sujeito psicótico não é sem sujeito, tem uma subjetividade específica, com lógica própria, que merece ser abordada sem a pressa da normalização.
Essa visada tem consequências clínicas diretas: ela exige que o clínico aprenda a tolerar o não-sentido, a sustentar a presença sem impor interpretação, a respeitar o tempo do sujeito mesmo quando esse tempo parece interminável.
O que a psicanálise precisa aprender
A psicanálise tem limites que a reforma psiquiátrica evidenciou. O divã de consultório particular não alcança a maioria das pessoas em sofrimento grave no Brasil. O CAPS, Centro de Atenção Psicossocial, opera com outra lógica, outra temporalidade, outra população. O psicanalista que se fecha em seu setting clássico e não dialoga com a RAPS (Rede de Atenção Psicossocial) perde a dimensão social e territorial do sofrimento mental.
A psicanálise, quando inserida nos serviços públicos, precisa se reinventar. Não abandonar seus conceitos, mas aprender a manejá-los em contextos de urgência, de pobreza, de violência, de cultura que não é a da classe média escolarizada para quem a teoria foi, historicamente, pensada. Há experiências brasileiras notáveis de clínica psicanalítica em serviços públicos, nos CAPS, nas UBSs, nas comunidades terapêuticas laicas, que merecem ser mais conhecidas e valorizadas.
O que ainda está em disputa
A luta antimanicomial não encerrou. O Brasil ainda tem leitos psiquiátricos em condições que, em muitos casos, não diferem substancialmente do que foi denunciado há décadas. A pressão para reabrir ou ampliar comunidades terapêuticas sem supervisão técnica adequada é constante. E o subfinanciamento da RAPS compromete a qualidade do cuidado mesmo onde a estrutura existe.
A psicanálise, nesse contexto, não pode ser neutra. Não estou pedindo militância partidária, estou apontando que o compromisso ético da clínica inclui o compromisso com as condições sociais que tornam o cuidado possível ou impossível. Um sujeito em sofrimento grave que não tem acesso a cuidado digno não é um problema clínico individual, é um problema político que tem consequências clínicas.
O Dia da Luta Antimanicomial pede que não esqueçamos. A psicanálise, com toda sua densidade conceitual, pode contribuir para que não esqueçamos, e para que o cuidado em liberdade seja mais do que slogan: seja prática, seja ética, seja clínica viva.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.