Todo ano, 11 de julho chega com aquele tipo de efeméride que ninguém comemora com bolo. Dia Mundial da População, instituído pela ONU em 1989, quando o planeta passou dos cinco bilhões de habitantes. Hoje já são mais de oito. Número que não diz nada e diz tudo ao mesmo tempo: é abstrato demais para caber na cabeça, mas concreto o bastante para produzir, em muita gente que passa pelo consultório, uma sensação bem específica. A de ser só mais um. Um CPF, um protocolo, uma senha na fila do SUS, um match a mais no aplicativo. E aí a pergunta que interessa à clínica não é demográfica, é subjetiva: o que acontece com o desejo de alguém quando esse alguém se sente, antes de tudo, uma unidade estatística?
Freud não tinha Datasus, mas tinha a Primeira Guerra Mundial e a ascensão dos movimentos de massa na Europa, e escreveu sobre isso em "Psicologia das massas e análise do eu", de 1921. A tese central é simples de enunciar e incômoda de digerir: numa massa (uma torcida, um culto, uma multidão em praça pública), o indivíduo não desaparece por afogamento, ele se transforma. Empresta parte do seu ideal de eu à figura do líder ou ao ideal comum do grupo, e é esse empréstimo que cria o laço entre os membros. Não é que a massa apague o sujeito; é que ela reorganiza, temporariamente, a economia psíquica de cada um em torno de um ponto externo. Por isso multidão pode libertar (a sensação de coro, de não estar sozinho) e também pode ser terrível (a suspensão de freios morais que a peça descreve quando o supereu individual é temporariamente delegado ao grupo).
O ponto que interessa aqui, porém, é quase o oposto do fenômeno de massa clássico. Não é a multidão organizada em torno de um líder que angustia o paciente contemporâneo. É a multidão anônima, sem rosto, sem ideal comum, a rigor sem laço nenhum: a massa estatística. Ser um entre oito bilhões não é participar de uma torcida, é ser um ponto num gráfico. E aqui a psicanálise, sobretudo na leitura que Lacan fez do laço social, tem algo a dizer que a psicologia de massas de Freud, sozinha, não cobre inteiramente.
O número e o nome próprio
Lacan insistia que o sujeito não é um indivíduo biológico, é um efeito da linguagem, algo que só existe amarrado a um significante que o representa para outro significante. Dito de outro modo: eu só sou alguém porque fui nomeado, chamado, inscrito numa cadeia de discurso que me antecede (o nome que meus pais escolheram, a língua em que fui falado, o desejo que me esperava antes de eu nascer). É esse enredamento simbólico, essa rede de significantes, que faz de mim um sujeito e não um espécime.
O que a experiência de "ser número" ataca, então, não é a autoestima em sentido raso. É essa amarração simbólica mesma. Quando o sistema (de saúde, de trabalho, de aplicativo de namoro, de rede social) trata a pessoa como unidade fungível, substituível, contável, ele produz um curto-circuito entre o sujeito do inconsciente (que é sempre singular, sempre atravessado por uma história irrepetível) e o sujeito estatístico (que é, por definição, intercambiável com qualquer outro da mesma categoria). Chama a atenção, na escuta, quantos pacientes chegam à sessão descrevendo o mal-estar contemporâneo em termos quase censitários: "sou só mais um currículo", "sou só mais uma paciente da fila", "meu perfil é igual a mil outros". A queixa raramente vem formulada em termos filosóficos, mas o núcleo é esse: a angústia de ser tratado como amostra de uma população, e não como caso.
O laço social que resta
Aqui vale abrandar qualquer tentação de romantizar o "sujeito único contra a massa desumanizante". A clínica brasileira sabe, ou deveria saber, que essa oposição é enganosa quando ignora quem está de que lado da fila. Ser tratado como número no SUS de um território periférico é uma experiência muito diferente de ser tratado como número num plano de saúde privado com atendimento humanizado à venda. A angústia do anonimato tem classe, tem cor, tem CEP. Reduzir gente a estatística é, historicamente, algo que se faz com mais violência a quem já é menos visto: população em situação de rua, população carcerária, população indígena contada (ou não contada) em censo. O Dia Mundial da População não é uma data neutra de celebração demográfica; é também, goste-se ou não, um lembrete de quem vira número com mais facilidade e de quem tem o privilégio de seguir sendo nome.
Dito isso, a psicanálise ainda tem algo de útil para quem atende esse mal-estar específico do anonimato de massa, e não é romantismo individualista. É reafirmar que o laço social não se resolve suprimindo o número, porque viver em sociedade complexa é inevitavelmente ser contado, cadastrado, estatisticado em algum grau. O que a clínica pode oferecer é o espaço onde a fala, mesmo de quem chega se sentindo protocolo, reencontra a costura entre o significante que a nomeia e a história que só ela tem. A sessão, nesse sentido, é um dispositivo estranhamente anti-estatístico: não porque ignore os números (peso, escala de ansiedade, tempo de fila), mas porque trata cada um deles como sintoma de uma trama particular, não como média de uma população.
Há também algo a dizer sobre o laço social positivo, aquele que Freud via nascer nas massas organizadas. A pertença a um grupo (comunidade terapêutica, coletivo, torcida, movimento social, terreiro) pode funcionar como antídoto parcial ao anonimato estatístico, na medida em que devolve ao sujeito um ideal partilhado que não o reduz a média, e sim o inscreve numa história com outros. É bem diferente de ser um ponto de dado; é ser um entre iguais que se reconhecem por um traço comum, não por uma coluna de planilha. A literatura sobre pertencimento comunitário como fator de proteção em saúde mental é ampla e o consenso, ainda que difuso, aponta nessa direção: isolamento agrava, pertença ajuda, mesmo quando o "pertencer" é a um número relativamente grande de pessoas.
Talvez o exercício de 11 de julho, então, não seja tentar sentir individualmente o peso de oito bilhões (impossível, o aparelho psíquico não foi feito pra essa escala), mas perguntar, na prática clínica e fora dela, onde cada paciente ainda consegue ser nomeado por alguém que o escuta como caso, não como amostra. A multidão vai continuar crescendo. A pergunta que sobra, para quem faz clínica, é se o consultório continua sendo um dos poucos lugares onde ainda se conta gente uma de cada vez.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.