Uma paciente me contou, certa vez, que tinha crises de ansiedade toda vez que o Carnaval se aproximava. Não durante, antes. Como se o corpo antecipasse algo que a mente ainda não formulou. Ela achava que o problema era "estar estressada com os preparativos". Mas o que me chamou atenção foi outra coisa: as crises cessavam exatamente na terça-feira de Carnaval, quando a festa já estava acontecendo. E voltavam na Quarta de Cinzas.

O sintoma não é aleatório. Essa é uma das teses centrais da psicanálise desde Freud, e permanece clínica e conceitualmente sólida: o sintoma tem uma lógica, um endereço, um momento de aparecimento que não é acidental. O corpo fala, e fala em código, um código que o sujeito, em geral, não decifra sozinho.

O que é um sintoma, rigorosamente

Em psicanálise, sintoma não é sinônimo de problema a eliminar. É uma formação de compromisso: entre o que o sujeito deseja e o que ele não pode (ou não consegue) assumir como desejo. O sintoma resolve, mal e porcamente, uma tensão que não encontrou outra saída. É por isso que, quando eliminamos o sintoma sem trabalhar o que ele encobria, ele costuma retornar, às vezes com outra roupagem, às vezes no mesmo lugar.

Isso não significa que o analista deve preservar o sofrimento do paciente. Significa que o sintoma merece ser lido antes de ser suprimido. A leitura, aqui, é sempre singular. Não existe uma lista universal de "o que o pânico de Carnaval significa". O que existe é um sujeito específico, com uma história específica, para quem a festa convoca algo que precisa ser nomeado.

Festa, permissão e proibição

O Carnaval é um tempo de permissão ampliada. E é exatamente aí que o sintoma se instala com mais vigor para certos sujeitos, porque a permissão, paradoxalmente, pode ser mais angustiante do que a proibição.

Freud já observou que a ausência de interdito pode gerar mais angústia do que a presença dele. A estrutura humana precisa de limite, não por puritanismo, mas porque é o limite que organiza o desejo. O desejo é sempre desejo do que não se tem plenamente, do que está do outro lado de um obstáculo. Quando o obstáculo desaparece (ou parece desaparecer), o desejo perde a orientação.

Para alguns sujeitos, o Carnaval representa exatamente isso: um excesso de possibilidade que paralisa. A crise de pânico no aeroporto antes da viagem para o bloco, o surto de gastrite na véspera, a "gripe" que aparece justo no sábado gordo. O corpo, que é mais sábio do que o discurso consciente nessas horas, produz o sintoma que justifica a retirada.

Escutar sem resolver rápido

O que faço, clinicamente, quando um paciente traz esse padrão? Não ofereço interpretação imediata. A pressa interpretativa é um erro técnico e ético, ela satisfaz mais ao analista do que ao paciente, e fecha prematuramente um espaço que precisa de tempo para se abrir.

O que faço é sustentar a pergunta. Por que agora? Por que o corpo? O que essa festa convoca, para você, que outras situações não convocam? Às vezes leva meses até que algo mais claro emerja. Às vezes, o próprio ato de colocar a pergunta já move alguma coisa.

O Carnaval de 2026 vai terminar. Os blocos vão se dispersar, as ruas vão ser varridas, os foliões vão voltar ao trabalho. E alguns vão chegar ao consultório em março com a sensação de que "algo aconteceu", mas sem saber o quê. Esses são os casos mais interessantes, clínica e humanamente. O sintoma deixou um rastro. Cabe ao trabalho analítico seguí-lo.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.