Há um tipo de sofrimento no trabalho que não entra nos relatórios de segurança e nem aparece nos afastamentos médicos. Não é o acidente físico, é o desgaste lento, aquele que não deixa marca visível no corpo mas vai, gradualmente, esvaziando algo. O trabalhador funciona, cumpre suas metas, aparece nas reuniões. Mas algo nele foi ficando para trás.

A psicanálise chamou de pulsão de morte, conceito freudiano que incomoda e fascina a muitos, ao que há no ser humano de tendência ao inorgânico, à repetição que não avança, ao quietismo que, levado ao limite, quer cessar. Não preciso dramatizar: não se trata de afirmar que trabalhar muito é suicídio. Mas há algo nessa pulsão que o trabalho contemporâneo aciona de modo perverso quando retira do sujeito o que deveria sustentar a pulsão de vida: reconhecimento, sentido, pertencimento.

O que o trabalho dá e o que tira

O trabalho, em sua dimensão saudável, oferece ao sujeito algo que a psicanálise reconhece como essencial: um lugar no laço social. Freud chegou a dizer que amor e trabalho são os dois pilares do que chamamos de saúde psíquica. Trabalhar é participar de uma cadeia de trocas, é deixar uma marca no mundo, é ser reconhecido por outros.

Mas o trabalho contemporâneo, e aqui falo especialmente do contexto brasileiro, com suas jornadas extenuantes, seus vínculos precários, sua gestão por metas que desconsideram o sujeito, frequentemente inverte essa equação. Em vez de oferecer reconhecimento, oferece vigilância. Em vez de sentido, oferece produtividade. Em vez de pertencimento, oferece competição.

O corpo como palco

O Abril Verde foca em acidentes do trabalho no sentido mais direto: lesões, quedas, doenças ocupacionais físicas. Mas a clínica psicológica conhece bem uma outra categoria de adoecimento relacionado ao trabalho: o que passa pelo corpo sem ser físico. A síndrome de burnout, reconhecida pela OMS como fenômeno ocupacional, é o exemplo mais codificado. Mas há gradações antes dela: a insônia persistente, as crises de ansiedade antes de reuniões, a irritabilidade que invade a vida doméstica, a anestesia afetiva que o paciente descreve como "não consigo mais sentir nada por nada".

Em linguagem psicanalítica, esse último, a anestesia, merece atenção especial. A inibição do afeto é uma das formas que o psiquismo encontra para se proteger de um excesso que não consegue metabolizar. Quando o trabalho é vivido como demanda sem limite e sem reconhecimento, o sujeito pode, progressivamente, se desligar do próprio desejo, inclusive o desejo de trabalhar, mas também o de se relacionar, de criar, de cuidar.

O que o analista pode oferecer

Não me cabe, como psicanalista, resolver as condições objetivas do trabalho do meu paciente. Não tenho poder sobre o gestor que assedia, sobre a precarização do vínculo, sobre o salário que não chegou. Mas tenho um poder específico: o de criar um espaço onde o sujeito possa nomear o que está vivendo, sem a obrigação de ser produtivo nem de apresentar resultado.

Isso soa simples. Mas para um sujeito cuja identidade está profundamente entrelaçada ao desempenho, a possibilidade de existir sem produzir, dentro da sessão, pode ser, em si mesma, terapêutica. Não porque o analista ofereça solução, mas porque oferece presença sem avaliação.

O Abril Verde lembra que a segurança no trabalho é direito. A psicanálise acrescenta: a subjetividade do trabalhador também é.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.