Certa vez, um supervisionando me descreveu a situação com clara perturbação: "O paciente me disse que sonha comigo. Que fica pensando no que eu diria antes de tomar decisões. Que a semana toda fica aguardando a sessão." E ele, o analista em formação, perguntou: "Fiz algo errado?"

A resposta é não. O que ele descreveu tem nome: transferência. E não é complicação, é o sinal de que o trabalho analítico está acontecendo.

A transferência é um dos conceitos centrais da psicanálise desde Freud. Em linhas gerais, designa o processo pelo qual o paciente dirige ao analista afetos, expectativas e padrões relacionais que têm origem em outras relações, geralmente as mais antigas, as mais formativas. O analista, nesse sentido, recebe investimentos que não lhe pertencem originalmente: é depositário de uma história que vem de outro lugar.

Por que a transferência é motor e não obstáculo

A leitura leiga tende a ver a transferência com suspeita: o paciente está se "apegando demais", está "confundindo o terapeuta com outra pessoa". Essa leitura não está completamente errada, mas está incompleta.

A transferência é motor porque é ela que mantém o paciente no trabalho. A análise demanda do sujeito uma exposição que é, objetivamente, penosa: falar do que dói, revisitar o que foi enterrado, habitar uma incerteza sem garantia de resolução. O que sustenta esse trabalho, quando o sujeito sente resistência (e sempre sentirá), é o vínculo com o analista. É a transferência que fornece a energia para continuar.

Freud observou que a transferência é ao mesmo tempo a maior aliada e o maior obstáculo da análise. Aliada porque move. Obstáculo porque, quando não é trabalhada, pode transformar a análise em simples repetição: o paciente reproduz com o analista os mesmos padrões que reproduz com todo mundo, sem que nada se mova.

O outono como tempo analítico

Há algo no outono, com sua luz decrescente, seu convite à introspecção, que ressoa com o tempo do aprofundamento analítico. Não é raro que pacientes que iniciaram tratamento no começo do ano, após a euforia de janeiro e o redemoinho de fevereiro, cheguem a março e abril em um outro registro: mais dispostos a falar do que dói, menos ansiosos com a solução, mais capazes de tolerar a ambiguidade.

É também o momento em que a transferência se consolida. O analista deixa de ser uma figura profissional neutra e passa a ter, na mente do paciente, uma presença mais carregada, de esperança, às vezes de frustração, às vezes de amor, às vezes de raiva. Tudo isso é material de trabalho.

Como manejar sem explorar nem negar

O manejo da transferência é uma das habilidades mais delicadas da clínica. Dois erros opostos: explorá-la (deixar que o paciente permaneça numa posição de dependência idealizada, que satisfaz o narcisismo do analista) ou negá-la (não reconhecer o investimento afetivo do paciente, tratar tudo como dado neutro).

O caminho é o que Freud chamava de trabalhar a transferência: reconhecer o que está sendo dirigido ao analista, devolver como interrogação, conectar ao material biográfico. "Você me atribui uma autoridade que me lembra o que você descreveu sobre seu pai" não é interpretação mágica, é uma hipótese de trabalho que o paciente pode aceitar, rejeitar ou reformular. O que importa é que o sujeito passe a ver o padrão, não apenas a vivê-lo.

A transferência bem manejada não cria dependência, cria a possibilidade de que o paciente se torne, progressivamente, menos dependente de qualquer figura de autoridade, inclusive do próprio analista. Esse é o horizonte da análise: não a cura como ausência de sintoma, mas o sujeito mais capaz de responder pela própria vida.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.