Comecei a ler Lacan em 1992, em formação de mestrado interrompida e retomada. Acompanhei a virada institucional dos anos 2000, com expansão das escolas brasileiras de orientação lacaniana. Em 2026, faço balanço de dois períodos.

Primeiro período: 2006 a 2016

Os primeiros dez anos foram de expansão e consolidação. Escolas se firmaram em capitais. Programas de pós-graduação cresceram em universidades públicas e privadas. A produção em português atingiu volume que antes dependia de tradução de espanhol e francês.

O Lacan brasileiro daquele período tinha tom específico. Mais escola, mais transmissão por seminário, mais participação institucional em encontros internacionais. O analista lacaniano brasileiro do período é frequentemente formado em curso longo com leitura sistemática de seminários, em supervisão escolar disciplinada.

A clínica daquele período mantinha relativo isolamento em relação a outras tradições terapêuticas. Diálogo com terapia cognitivo-comportamental era escasso. Diálogo com psicanálise winnicottiana ou bioniana acontecia em algumas instituições mas era exceção.

Segundo período: 2016 a 2026

Os últimos dez anos têm textura diferente. A psicanálise lacaniana brasileira ganhou novas frentes. Articulação com debates políticos contemporâneos. Diálogo com estudos culturais. Atuação em saúde pública. Produção sobre temas que pareciam fora do escopo lacaniano clássico: redes sociais, política eleitoral, mudança climática.

A formação também mudou. Cursos curtos surgiram ao lado de formação longa de escola. Há quem critique a expansão dos cursos rápidos como diluição. Há quem defenda como democratização. O debate segue.

A clínica do período integra mais com outras tradições. Analistas lacanianos atuando em hospitais e em saúde pública dialogam, na prática, com psiquiatras de orientação biológica, com psicólogos cognitivos, com terapeutas familiares. As fronteiras estão menos nítidas que em 2006.

O que ganhamos

Ganho central: pensamento clínico que enfrenta material brasileiro com ferramentas lacanianas, sem subordinar o material à teoria. Análise de discurso político, leitura de fenômenos sociais, intervenção em saúde pública. A psicanálise lacaniana brasileira de 2026 produz literatura própria, não derivada.

Ganho segundo: formação distribuída por mais cidades. Em 2006, formação séria em Lacan estava concentrada no eixo Rio-São Paulo-Porto Alegre. Em 2026, há núcleos em Salvador, Recife, Belém, Belo Horizonte, Curitiba. A capilaridade muda o que se pode pensar.

O que vale problematizar

Há tendência, em algumas frentes da produção, de uso ornamental do conceito. Citação de Lacan em texto que não trabalha clinicamente o que está sendo afirmado. Isso ocorre em qualquer tradição teórica. Vale vigilância em casa.

Há também tensão entre rigor de transmissão escolar e abertura a diálogo intelectual amplo. A tensão é produtiva quando sustentada com cuidado. É menos produtiva quando vira polarização.

Para os próximos dez anos

Espero ver mais clínica lacaniana brasileira em diálogo com pesquisa empírica em saúde mental. Não no sentido de validar via psicometria, mas no sentido de articular tradição lacaniana com dados de campo que a psicanálise sozinha não produz.

Espero ver mais formação em regiões ainda menos cobertas. Norte e parte do Nordeste seguem com oferta limitada.

Espero ver, sobretudo, mais analistas brasileiros publicando livro próprio. Não comentário. Livro próprio. A geração que está em formação nos próximos cinco anos terá essa tarefa.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.