Janeiro de 2026 entra com previsões de calor mais altas que a média histórica. A relação entre calor extremo e saúde mental é menos óbvia que a relação entre calor e saúde física, mas é igualmente importante.
A literatura internacional documenta o que clínicos brasileiros sentem há anos: ondas de calor associam-se a aumento de internações psiquiátricas em geral, piora de quadros de transtorno bipolar, aumento mensurável de tentativas de suicídio em algumas latitudes. Os mecanismos são múltiplos: sono fragmentado, desidratação, estresse fisiológico, interrupção de rotinas.
O que a clínica pode fazer
Ajustar o plano terapêutico em janeiro merece consideração explícita. Pacientes em quadros sensíveis ao estresse fisiológico podem precisar de monitoramento mais frequente. Para pacientes em uso de medicação psicotrópica, vale revisar dosagem e hidratação em conjunto com psiquiatra. Lítio, por exemplo, exige atenção especial em períodos de calor.
Recomendações práticas para pacientes em janeiro: manter rotina de sono ainda que o calor dificulte, evitar exposição prolongada nas horas centrais, hidratar com atenção, manter contato terapêutico ainda que parcial via telepsicologia em momentos de pico de calor.
O que o sistema pode fazer
Aqui o problema cresce. O SUS tem CAPS distribuídos, mas a maioria não tem protocolo específico de resposta a ondas de calor. Em São Paulo e Rio Grande do Sul, alguns municípios começaram em 2024 a integrar serviços de saúde mental aos planos municipais de resposta climática. Em muitos outros, a integração ainda não existe.
O que se espera
Pesquisa brasileira sobre saúde mental e mudança climática avança devagar. Grupos no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Belém começaram nos últimos três anos. Os primeiros estudos de coorte longitudinal sairão em 2027.
Enquanto isso, em janeiro de 2026, a clínica é onde começa a resposta. Ajustar plano, manter contato, escutar com atenção redobrada às queixas físicas que vêm com o calor. O paciente que descreve "cansaço estranho" em janeiro pode estar descrevendo efeito de temperatura, não exacerbação psi. A distinção importa.
Para fechar
O verão brasileiro tem características próprias que poucos manuais cobrem. Cabe a nós, clínicos brasileiros, escrever os manuais que faltam.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.