Era madrugada de junho quando a equipe do consultório na rua de Curitiba encontrou Seu Nilton encostado na parede de um banco, tremendo não só de frio. Ele estava há três dias sem comer, mas o que o imobilizava não era a fome: era o peso que desceu quando o tempo fechou, aquela angústia sem nome que ele chamava de "o buraco". A equipe o encaminhou ao CAPS. Era o quinto atendimento do mês com histórico parecido. Junho havia chegado.

Essa cena, ou variações dela, se repete todo inverno em cidades do Sul e do Sudeste. O frio é visível: os abrigos lotam, as notícias mostram cobertores distribuídos, o poder público lança campanhas de emergência. O que fica invisível é o sofrimento psíquico que acompanha a friagem, especialmente em populações que já carregam histórias de transtorno mental, dependência química e vínculos sociais fraturados.

O que o frio faz com a mente

A relação entre variação climática e saúde mental não é simples nem linear. Não existe, no contexto brasileiro, o equivalente do transtorno afetivo sazonal clássico descrito em populações nórdicas: nosso inverno é curto, nossa luz do dia não colapsa. Mas há indícios, documentados na literatura de saúde pública, de que a queda de temperatura e a redução da circulação social no inverno agravam condições preexistentes: depressão, psicose, uso abusivo de substâncias.

Para quem não tem casa, o frio é também uma agressão contínua ao sistema nervoso. Dormir mal, comer mal e estar permanentemente exposto ao ambiente são fatores que a pesquisa em saúde mental e vulnerabilidade social associa a piora de sintomas psiquiátricos. Publicações do campo da saúde coletiva sobre população em situação de rua apontam que transtornos mentais graves são simultaneamente causa e consequência de viver nas ruas: criam a situação de vulnerabilidade e são agravados por ela.

O CAPS como linha de frente

A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) foi desenhada, ao menos no papel, para acolher justamente esse tipo de demanda: urgências que chegam fora do consultório, em territórios de alta vulnerabilidade, em horários que o serviço tradicional não alcança. Os Centros de Atenção Psicossocial e os consultórios na rua são os equipamentos que, na prática, sustentam esse encontro entre inverno e adoecimento psíquico.

Mas a capacidade instalada dessa rede é desigual. Curitiba, onde escrevo, tem cobertura relativamente melhor do que a média nacional: é uma cidade com sistema de saúde estruturado e histórico de gestão em saúde mental. Ainda assim, no inverno, os profissionais relatam sobrecarga. Fora das capitais, a equação é mais grave. Municípios menores, com apenas um CAPS ou nenhum, dependem inteiramente das UBSs e das emergências hospitalares para acolher crises que eram previsíveis e, em teoria, evitáveis.

O que a clínica pode fazer

Para quem atende, o inverno exige uma escuta mais atenta ao contexto material do paciente. Não é sobre psicologizar a pobreza: é sobre reconhecer que condições de vida objetivas afetam o psiquismo de modo concreto. Perguntar onde o paciente vai dormir essa noite não é desviar da clínica. É parte dela.

Há também uma dimensão coletiva que escapa ao consultório individual. A articulação entre profissionais de saúde mental, assistência social e equipes de abordagem de rua é o que permite, na prática, que Seu Nilton chegue ao CAPS antes de chegar à emergência em colapso. Essa articulação depende de vontade política, financiamento e formação. Depende, também, de profissionais que entendam que a clínica não termina na porta do consultório.

Junho como provocação

Escolho escrever isso em junho porque junho é quando o frio chega de verdade no Sul do país. É quando as notícias mostram os cobertores e esquecem o sofrimento psíquico. É quando o sistema de saúde costuma estar mais sobrecarregado com síndromes gripais e subestima a demanda em saúde mental.

Não tenho como prever o que os dados de internação deste inverno vão mostrar. A pesquisa brasileira sobre sazonalidade e saúde mental ainda é escassa: esse é um campo que precisa crescer, com metodologia adequada ao nosso clima, ao nosso território, às nossas desigualdades.

O que posso afirmar, a partir de anos de prática hospitalar, é que o inverno não é neutro para quem já está no limite. E que o cuidado que não chega antes da crise custa mais, em sofrimento e em recurso, do que qualquer política de prevenção que pudéssemos ter feito em maio.

O buraco do Seu Nilton não tem nome técnico. Mas tem endereço: mora onde o Estado não aquece.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.