Toda vez que o Carnaval termina, os serviços de saúde percebem algo. Não é só o cansaço físico da folia, os leitos a mais demandados, as urgências que sobem. É uma espécie de ressaca afetiva que atravessa o território e chega, com algum atraso, às unidades básicas de saúde, aos CAPS, às equipes de atenção psicossocial espalhadas pelo país.
O fenômeno não é novo, e a literatura de saúde coletiva há muito reconhece que grandes eventos culturais de massa funcionam como amplificadores do estado psíquico pré-existente das populações. Não é que o Carnaval cause sofrimento, é que ele suspende, por alguns dias, o conjunto de defesas cotidianas que mantém esse sofrimento gerenciável. Quando a suspensão acaba, o que estava represado volta com força.
A ilusão da ruptura e o retorno brusco
O Carnaval é, na imaginação coletiva brasileira, uma ruptura radical: o tempo ordinário cede lugar ao tempo extraordinário. Máscaras, inversão de papéis, o corpo que dança sem pedir permissão. Há algo genuinamente terapêutico nessa suspensão, e autores que estudaram o festivo, de Mikhail Bakhtin em diante, apontaram como os rituais de festa funcionam como válvulas de regulação social.
O problema não está na festa, mas no que ocorre quando ela termina. A quarta-feira de cinzas impõe uma exigência brutal: do ápice da euforia coletiva ao retorno imediato às responsabilidades. Trabalho, família, dívidas, adoecimento, solidão. Para pessoas já fragilizadas, com transtornos de humor, uso problemático de álcool e outras substâncias, situações de vulnerabilidade social, esse retorno pode ser um gatilho significativo.
O que o SUS vê depois da folia
As equipes de saúde mental que atuam na atenção básica e nos CAPS de capitais brasileiras tendem a relatar, nos dias que seguem o Carnaval, um aumento na procura por atendimento. Há indícios de que episódios de transtorno bipolar podem se intensificar nesse período, a privação de sono, o consumo de substâncias, a hiperestimulação sensorial são fatores reconhecidos de desestabilização para pessoas com esse diagnóstico. A pesquisa brasileira sobre esse fenômeno específico ainda é incipiente, mas o relato dos profissionais de campo é consistente o suficiente para merecer atenção.
O uso de álcool durante o Carnaval é parte da cultura da festa. Isso não significa que seja inócuo para toda a população. O SUS, por meio do programa de atenção a usuários de álcool e outras drogas articulado à RAPS, a Rede de Atenção Psicossocial, tem entre suas missões acolher justamente quem chega após períodos de uso intensivo. Os CAPS AD (álcool e drogas) são a porta principal desse cuidado, e seu papel no pós-Carnaval é especialmente relevante.
Saúde mental coletiva não é só individual
Aqui está um ponto que a saúde pública insiste em colocar, mas que o senso comum teima em ignorar: sofrimento psíquico tem dimensão coletiva. O Carnaval expõe desigualdades que são, antes de tudo, estruturais. Quem brinca e quem trabalha na festa. Quem tem acesso a espaços protegidos de folia e quem está na rua, sem rede. Quem atravessa o período com apoio familiar e quem atravessa sozinho, em situação de rua ou de violência doméstica.
A saúde mental coletiva, que tem na crítica ao manicômio uma de suas raízes, crítica para a qual a psiquiatra Nise da Silveira contribuiu de forma decisiva, com sua recusa dos métodos agressivos da época e sua aposta na terapia ocupacional como cuidado vivo, nos lembra que tratar a mente separada do contexto social é uma abstração cara demais para um país com as desigualdades do nosso.
O que fazer, e o que o sistema pode fazer melhor
Para quem trabalha na atenção psicossocial, o período pós-Carnaval pede reforço de escuta nas unidades básicas. Não é sobre criar protocolos de emergência para a ressaca, é sobre garantir que as pessoas que chegam, muitas vezes sem saber nomear o que sentem, encontrem acolhimento e não triagem fria.
Para o sistema, é uma oportunidade de reafirmar o que a Lei 10.216/2001, a lei da reforma psiquiátrica brasileira, já estabeleceu como princípio: o cuidado em liberdade, em território, articulado com a vida real das pessoas. O Carnaval passa. A rede precisa continuar de pé.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.