A saúde mental das mulheres tem especificidades que o sistema de saúde brasileiro reconhece no papel, mas frequentemente subestima na prática. Depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático associado à violência de gênero, adoecimento por sobrecarga de cuidado, o mapa do sofrimento psíquico feminino no Brasil tem contornos próprios que exigem respostas específicas.

Março começa com o Dia Internacional da Mulher se aproximando (8 de março), e é uma boa oportunidade para ir além dos discursos de celebração e perguntar: o que o SUS efetivamente oferece à mulher que chega com sofrimento psíquico?

A carga invisível que adoece

A saúde coletiva tem um conceito importante para entender parte desse sofrimento: a carga dupla, ou tripla, de trabalho. Mulheres trabalham fora, cuidam da casa, cuidam dos filhos, cuidam de pais idosos, cuidam do parceiro. A carga mental associada a essa gestão cotidiana é objeto crescente de atenção na literatura de saúde pública, ainda que as pesquisas brasileiras específicas sobre o tema sejam relativamente recentes.

O que se sabe é que o adoecimento por exaustão não é metáfora: é processo fisiológico e psíquico real, com consequências mensuráveis para a saúde física e mental. A diferença de gênero nos índices de burnout, depressão e ansiedade é documentada, com as mulheres apresentando, em geral, índices mais altos, especialmente em determinados grupos etários e contextos de vulnerabilidade.

Violência de gênero: o que o sistema de saúde enxerga

A violência doméstica e sexual é um determinante de saúde mental que o SUS tem obrigação de acolher, e, em muitos territórios, ainda falha em reconhecer. A Lei Maria da Penha (11.340/2006) e protocolos posteriores do Ministério da Saúde estabelecem diretrizes para o atendimento de mulheres em situação de violência nas unidades de saúde. A distância entre a norma e a prática, porém, continua sendo enorme em boa parte do país.

O sofrimento psíquico decorrente da violência, que inclui TEPT, depressão, dissociação, entre outros quadros, exige equipes treinadas para além do atendimento orgânico. A formação das equipes de atenção básica para o acolhimento de mulheres em situação de violência é reconhecidamente um ponto frágil do sistema.

O que a RAPS oferece, e para quem

A Rede de Atenção Psicossocial, quando funciona de modo articulado, oferece acesso ao cuidado em saúde mental sem a necessidade de internação psiquiátrica. Para mulheres com transtornos mentais severos, os CAPS são a porta de entrada principal. Para mulheres com sofrimento moderado, ansiedade, depressão, luto, esgotamento, a atenção básica deveria ser o primeiro contato.

O problema é que a atenção básica ainda tem dificuldade de distinguir, no acolhimento, o sofrimento que precisa de encaminhamento especializado daquele que pode ser manejado com escuta qualificada, grupos de apoio e articulação com a rede de proteção social. Essa habilidade não se desenvolve sem formação continuada e sem tempo de consulta real, que, na lógica produtivista das UBS sobrecarregadas, raramente está disponível.

O que ainda falta

Falta reconhecimento de que saúde mental das mulheres não é nicho, é prioridade de saúde pública. Falta articulação entre os serviços de saúde mental e os CRAS, os CREAs, as casas-abrigo, os serviços de assistência social. Falta formação em saúde mental com recorte de gênero para médicos de família, enfermeiros e agentes comunitários.

E falta, talvez acima de tudo, o reconhecimento de que o sofrimento das mulheres não é destino natural de gênero. É consequência de uma estrutura que pode, e deve, ser transformada.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.