O Abril Verde é a campanha nacional de conscientização sobre saúde e segurança no trabalho. Ela existe há décadas, mobiliza empresas, sindicatos e órgãos públicos, e tem o mérito de colocar o tema na pauta. Seu foco, porém, é predominantemente nos acidentes físicos, as quedas, os esmagamentos, as queimaduras, as mortes nos canteiros de obras e nas linhas de produção.

O adoecimento mental relacionado ao trabalho raramente entra com força nessa conversa. E deveria.

O que a epidemiologia do trabalho reconhece

A medicina do trabalho e a psicologia organizacional têm um corpo crescente de evidências sobre o impacto do ambiente de trabalho na saúde mental. Burnout, esgotamento profissional, foi reconhecido pela OMS como fenômeno ocupacional na CID-11. Assédio moral, jornadas extenuantes, trabalho em condições de risco físico constante, precarização dos vínculos, trabalho intermitente e plataformizado: cada um desses elementos tem relação documentada com adoecimento psíquico.

No Brasil, os registros de afastamento por transtornos mentais e comportamentais junto ao INSS figuram entre os mais frequentes, e há indícios de subnotificação significativa, já que muitos trabalhadores, especialmente os informais, nunca chegam a registrar o adoecimento como ocupacional.

Quem adoece mais, e por quê

A distribuição do adoecimento mental relacionado ao trabalho não é aleatória. Trabalhadores e trabalhadoras de saúde, educação, assistência social e segurança pública estão entre os grupos com maior vulnerabilidade documentada, são profissões que combinam alta demanda emocional com recursos institucionais frequentemente insuficientes.

Trabalhadores em situação de informalidade têm proteção jurídica menor e acesso mais precário à saúde do trabalhador. Mulheres, especialmente em funções de cuidado, acumulam exigências de trabalho emocional que raramente são reconhecidas como risco ocupacional. Trabalhadores negros, além de estarem sobrerepresentados em postos de trabalho mais precários, enfrentam o adoecimento adicional do racismo institucional.

O que o SUS faz, e o que poderia fazer mais

A rede de Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) é o principal dispositivo do SUS para atenção à saúde de quem trabalha. Sua cobertura é desigual: concentrada nos grandes centros urbanos, com acesso limitado para trabalhadores rurais, informais e de pequenos municípios.

A articulação entre CEREST e a atenção básica é fundamental, e frequentemente frágil. O médico de família que atende o trabalhador com depressão raramente tem ferramentas ou tempo para investigar o nexo causal com o trabalho. Isso significa que muitos casos de adoecimento ocupacional são tratados como adoecimento individual, sem o reconhecimento que permitiria acesso a direitos trabalhistas e previdenciários.

O que o Abril Verde ainda não faz

O Abril Verde, em sua versão predominante, ainda tende a responsabilizar o trabalhador pelo acidente e pelo adoecimento, o "use EPI", o "cuide-se". A perspectiva da saúde coletiva inverte essa lógica: o ambiente de trabalho é que precisa ser avaliado, regulado e transformado.

Incluir a saúde mental no Abril Verde não é apenas ampliar o escopo da campanha. É reconhecer que a exploração do trabalhador tem custos psíquicos reais, e que esses custos não devem ser tratados como efeito colateral aceitável do desenvolvimento econômico.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.