Em meados de março (dia 13, em 2026), o mundo comemora o Dia Mundial do Sono, data criada pela World Sleep Society para chamar atenção para os impactos dos distúrbios de sono na saúde. No Brasil, o tema ressoa com força: somos um país que historicamente subestima o sono como determinante de saúde, e nosso sistema público de saúde ainda trata o assunto como questão secundária, quando trata.

A epidemiologia do sono no Brasil é mal mapeada. Há dados fragmentados, estudos populacionais pontuais, estimativas, mas a vigilância epidemiológica sistemática sobre distúrbios do sono na população brasileira é incipiente. É razoável supor, a partir do que se conhece de outros países em desenvolvimento com perfil demográfico semelhante ao nosso, que o problema seja significativo. O que sabemos é que chega ao consultório, ao CAPS, à UBS, com frequência disfarçado de outra coisa.

O sono como determinante de saúde mental

A relação entre sono e saúde mental é bidirecional e bem estabelecida na literatura científica. Transtornos do sono estão associados a piora de quadros depressivos, de ansiedade, de psicoses, e, em sentido contrário, o adoecimento psíquico interfere diretamente na arquitetura do sono. Essa circularidade complica o diagnóstico e o tratamento.

O que a saúde pública precisa entender é que o sono não é luxo nem questão de disciplina individual. É função biológica essencial com determinantes sociais claros: quem dorme mal no Brasil? Em geral, quem trabalha em turnos noturnos, quem vive em territórios violentos, quem tem filhos pequenos sem suporte de rede, quem está em situação de vulnerabilidade habitacional. A privação de sono tem endereço social.

O que a atenção básica não está fazendo

A triagem de distúrbios do sono na atenção básica brasileira é raridade. Médicos de família, quando muito, perguntam sobre o sono de forma superficial durante consultas sobrecarregadas. O rastreamento sistemático de insônia, apneia obstrutiva do sono ou síndrome das pernas inquietas não é protocolo padrão nas UBS, e deveria ser, dado o impacto dessas condições na qualidade de vida e na saúde mental.

Parte do problema é de formação: a medicina do sono ainda é especialidade de acesso restrito, concentrada em grandes centros urbanos. Parte é de estrutura: sem polissonografia disponível pelo SUS de forma ampla, o diagnóstico das condições mais graves fica comprometido.

Sono, pobreza e adoecimento: o círculo que fecha

Há um aspecto que a saúde pública não pode ignorar: a privação de sono afeta de forma desproporcional as populações mais vulneráveis. Trabalhadores e trabalhadoras que acumulam empregos, que dependem de transporte público demorado, que vivem em condições habitacionais precárias, esses grupos dormem menos, dormem pior, e têm menos acesso a tratamento quando adoecem.

A saúde coletiva trabalha com o conceito de iniquidade em saúde: a distribuição desigual de riscos e doenças segundo determinantes sociais. O sono é um desses territórios de iniquidade. Ignorá-lo é ignorar parte importante do quadro.

O que pode ser feito

A atenção básica poderia incorporar, de forma simples e de baixo custo, o rastreamento de distúrbios do sono nas consultas de rotina. Instrumentos como o Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh são validados para uso em contextos de saúde e não exigem equipamento especializado.

Além disso, grupos de educação em saúde sobre higiene do sono, conduzidos por equipes multidisciplinares nas UBS, têm potencial de impacto coletivo relevante, especialmente quando combinados com abordagem dos determinantes sociais. Não basta dizer "durma melhor". É preciso perguntar o que impede.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.