Amanhã é 7 de abril, Dia Mundial da Saúde, data que marca o aniversário de fundação da Organização Mundial da Saúde, em 1948. Todo ano, a OMS escolhe um tema. Todo ano, governos assinam declarações. E todo ano, a distância entre o que se proclama e o que se pratica permanece sendo o maior diagnóstico disponível sobre a saúde como política.

No Brasil, o 7 de abril pede um exercício específico: o que o SUS, que é, em teoria, um dos sistemas universais de saúde mais ambiciosos do mundo, ainda não conseguiu entregar para a sua população?

A grandiosidade do projeto e a crueldade da lacuna

O Sistema Único de Saúde nasceu da Constituição de 1988, produto de uma luta política que reuniu sanitaristas, movimentos sociais, profissionais de saúde e cidadãos. Seus princípios, universalidade, integralidade, equidade, são referência internacional. Em termos de atenção básica e de cobertura de imunização, o Brasil construiu algo notável.

E ainda assim: há quem morra de tuberculose no Brasil em 2026. Há territórios onde não existe UBS. Há regiões sem um único psiquiatra a centenas de quilômetros. Há mulheres que fazem pré-natal sem ultrassom. A grandiosidade do projeto convive, há décadas, com a crueldade das lacunas.

Saúde mental no contexto da saúde global

Uma das questões que o campo da saúde global tem enfrentado nas últimas décadas é a persistente subvalorização da saúde mental nos sistemas de saúde. A OMS recomenda há muito que os países integrem saúde mental à atenção primária, mas a implementação é, na maioria dos contextos, fragmentária.

No Brasil, a saúde mental na atenção básica tem avançado com o apoio matricial do NASF (Núcleo Ampliado de Saúde da Família) e seus equivalentes. Mas o apoio matricial depende de financiamento estável, de equipes completas e de uma cultura institucional que valorize a escuta, todos elementos escassos na maioria dos municípios brasileiros.

O que os determinantes sociais ainda explicam

A OMS adotou, nas últimas décadas, o conceito de determinantes sociais da saúde como framework central para entender por que as pessoas adoecem de formas tão diferentes dependendo de onde nascem, moram e trabalham. É uma contribuição teórica e política relevante, e que encontra eco na tradição da saúde coletiva brasileira, fortemente influenciada por autores como Jaime Breilh e pelo pensamento de Sérgio Arouca.

No Brasil, raça, classe e território continuam sendo os principais preditores de acesso desigual à saúde. Populações negras, indígenas, residentes em periferias urbanas e em zonas rurais remotas têm indicadores de saúde piores e acesso a serviços sistematicamente mais difícil. Isso não é acidente, é o resultado de escolhas políticas e de estruturas históricas que o sistema de saúde, por si só, não tem capacidade de desfazer.

O que o 7 de abril pode provocar

Dias como o 7 de abril servem, quando bem aproveitados, para fazer perguntas incômodas. Por que o Brasil, com um sistema público de saúde tão sofisticado em sua concepção, ainda convive com iniquidades tão marcadas? O que está funcionando, e para quem? O que precisaria mudar, e quem paga o custo político dessa mudança?

A saúde pública é, antes de tudo, uma escolha de prioridades. O Dia Mundial da Saúde é um bom momento para lembrar que essas escolhas são políticas, e que políticas se constroem, se disputam e se transformam.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.