O Dia Internacional da Mulher, no Brasil, atravessa cada vez mais a vida cotidiana, está nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp, nas memórias familiares, nas rodas de amizade. Isso significa que a semana que envolve o dia 8 de março produz um campo emocional específico, e esse campo chega ao consultório. Pacientes que não costumam falar de gênero, de feminismo, de violência doméstica aparecem na sessão com algo mobilizado, às vezes de forma direta, às vezes disfarçado de outro assunto, às vezes como cansaço sem causa aparente.
Minha observação, ao longo de anos de consultório com mulheres e com homens que vivem ao lado de mulheres, é que essa mobilização raramente chega com rótulo. O paciente não diz "vim falar sobre o Dia da Mulher". Ele chega com um conflito recente com a mãe, com uma cena de ontem à noite que o incomodou, com uma sensação vaga de irritação ou de tristeza que não sabe nomear. O terapeuta que só ouve o conteúdo explícito perde o contexto que o carrega.
Carga mental e o que não aparece em diagnóstico
A sobrecarga feminina, o que se convencionou chamar de carga mental, mas que vai muito além de um conceito, tem um modo específico de aparecer na clínica brasileira. Ela raramente chega como queixa principal. As mulheres que chegam ao consultório, em geral, chegam com ansiedade, depressão, dificuldades relacionais, burnout. Só num segundo ou terceiro movimento, quando o vínculo terapêutico oferece segurança suficiente, emerge a estrutura subjacente: o tanto que essa pessoa gerencia, coordena, antecipa, suaviza, em casa, no trabalho, nas relações, sem que isso seja nomeado como trabalho por ninguém ao redor.
A clínica que não tem sensibilidade a esse contexto pode sem querer individualizar o que é também estrutural. Pode tratar como sintoma intrapsíquico aquilo que tem raízes em como nossa sociedade distribui desigualmente as responsabilidades relacionais e domésticas. Isso não significa que o consultório vira espaço de ativismo, significa que o olhar clínico precisa incluir o território social em que o sujeito vive.
Os homens que chegam depois do dia 8
Algo que raramente se discute: o Dia Internacional da Mulher também mobiliza pacientes homens. Às vezes chega o parceiro que se sentiu cobrado pela companheira e não sabe o que fazer com isso. Às vezes chega o filho adulto que teve uma conversa difícil com a mãe. Às vezes é simplesmente o homem que ficou desconfortável com algo que viu nas redes sociais e não consegue articular por quê.
Esses homens raramente chegam dizendo que o tema é esse. Mas quando o terapeuta tem sensibilidade ao contexto, e quando o vínculo permite, é possível que a sessão alcance um nível mais profundo: o que esse desconforto revela sobre a imagem que esse paciente tem de si mesmo como filho, parceiro, pai; sobre o quanto ele aprendeu a enxergar o trabalho de cuidado que as mulheres ao redor dele realizam; sobre o que ficou invisível durante anos e agora, num contexto social de maior pressão por accountability, começa a aparecer.
O que o terapeuta faz com o contexto
Há uma questão de técnica aqui que não tem resposta simples: quanto o terapeuta deve ativamente trazer o contexto sociopolítico para dentro da sessão? Há diferentes escolas com perspectivas diferentes sobre isso, e não é minha pretensão hierarquizá-las. O que me parece indispensável, porém, é que o terapeuta seja capaz de reconhecer quando o contexto está presente, mesmo que opte por não nomeá-lo diretamente.
A psicóloga que atende uma paciente exausta, irritável, com insônia, que diz que "não tem nada de especial acontecendo", e que trabalha com dois empregos, gerencia a logística doméstica quase inteiramente, cuida de uma mãe idosa e ainda se sente culpada por não dar conta de tudo, essa psicóloga precisa ter uma hipótese sobre a estrutura antes de oferecer um psicoeducação sobre higiene do sono.
Março chega sempre com esse convite: o de afinar a escuta para o que as estruturas sociais produzem nos corpos e nas psiques de quem atendemos. Não para substituir o olhar clínico pelo olhar político, mas para que um informe e amplie o outro.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.