Há sessões que acontecem em momentos de dobradiça, no entre, no limiar, no espaço que separa um tempo do outro. A última sessão de abril é frequentemente assim. O mês que fecha: outono afirmado, rotina retomada depois das festas, feriados que fragmentaram a cadência das semanas. O mês que abre: o Dia do Trabalhador, logo no início do mês, Dia das Mães se aproximando, a Luta Antimanicomial que o campo da saúde mental vai revisitar no dia 18.

Não é que o paciente chegue com tudo isso em mente. Mas o corpo e o psiquismo têm seus próprios calendários, e eles dialogam com o calendário social de formas que nem sempre sabemos rastrear. A sessão de véspera de maio, em muitos casos, carrega uma qualidade particular: de balanço, de antecipação, de coisas que precisam ser ditas antes que o tempo mude.

O tempo na sessão e o tempo fora dela

A psicoterapia tem uma relação interessante com o tempo. Por um lado, cria um tempo próprio, a sessão como parêntese do cotidiano, espaço onde as réguas habituais de produtividade e eficiência são suspensas. Por outro, acontece num tempo histórico concreto, atravessada pelo calendário, pelas estações, pelos acontecimentos que chegam pelo portão junto com o paciente.

Bion falava da sessão como aquela em que terapeuta e paciente habitam o presente, sem memória e sem desejo, como instrução metodológica que ninguém cumpre integralmente, mas como orientação para a qualidade de presença que se busca. Esse presente, porém, não é estéril. Ele é o presente daquele dia específico, naquele mês, com tudo que está em movimento no mundo do paciente.

Reconhecer isso não significa deixar a sessão se tornar comentário do cotidiano. Significa ter sensibilidade ao contexto que embala o material, que informa por que aquele paciente trouxe aquele tema naquele dia específico.

O que as transições revelam

Pacientes que têm dificuldade com transições, com fins e começos, com a instabilidade do que está em movimento, costumam apresentar algo específico nas sessões de dobradiça. Às vezes um adensamento: mais conteúdo, mais urgência, como se precisassem colocar tudo antes que o tempo passe. Às vezes um esvaziamento paradoxal: chegam sem assunto, parecendo que não há nada a dizer, quando, na verdade, há demais.

Esses padrões valem atenção. A relação de cada pessoa com as transições, com o fim das coisas, com a incerteza do que vem, é clinicamente informativa. Ela aparece na véspera do Carnaval, aparece na semana antes das férias, aparece na última sessão antes de um recesso. Cada uma dessas pequenas crises de limiar é uma janela para o mundo interno do paciente.

Maio como contexto clínico

O mês que está chegando tem uma carga emocional densa para muitos pacientes. O Dia das Mães mobiliza a constelação familiar, a relação com a própria mãe, a experiência de ser mãe, o luto de quem perdeu, a ambivalência de quem a relação é difícil. A Luta Antimanicomial, dia 18, reacende o debate sobre saúde mental coletiva num país que ainda tem tensões profundas com o modelo asilar. O Dia do Trabalhador, logo no começo, toca questões sobre trabalho, dignidade, esgotamento, particularmente num contexto de precarização crescente.

Nenhum desses ganchos precisa entrar na sessão de forma direta. Mas o clínico que tem consciência deles está mais preparado para reconhecer quando o paciente está, sem saber, falando sobre algum deles, quando o tema que parece ser sobre outra coisa tem, na verdade, essa âncora mais funda.

A última sessão de abril é um momento de transição que pode, se recebido com atenção, oferecer muito material. O que ainda não foi dito em abril e precisa encontrar lugar? O que maio vai trazer que o paciente ainda não sabe que sente? Às vezes, a sessão mais valiosa não é aquela que resolve algo, mas aquela que abre o espaço para o que ainda está por vir.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.