Existe uma lacuna significativa na formação clínica de psicólogos brasileiros quando o assunto é autismo em adultos. A maior parte do que aprendemos, em estágio, em supervisão, nos casos clínicos que se tornaram clássicos, diz respeito à infância: diagnóstico precoce, intervenção comportamental, orientação familiar. O adulto autista que chega ao consultório procurando psicoterapia continua, em boa parte dos casos, chegando a um profissional que não foi preparado para recebê-lo.
Isso tem consequências concretas. A comunicação clínica convencional, a linguagem metafórica, o silêncio como ferramenta, a interpretação de gestos e expressões não verbais, o trabalho com ambiguidade, pode não ser a abordagem mais adequada para muitos pacientes autistas. Não porque eles sejam menos capazes de elaboração psicológica, mas porque seus modos de processar e de se comunicar com frequência diferem do que o consultório típico espera.
O que o diagnóstico tardio traz para a clínica
Nos últimos anos, o número de adultos que chegam ao consultório com diagnóstico recente de autismo, frequentemente autodiagnóstico que depois se confirmou, aumentou de forma perceptível. Muitas dessas pessoas passaram décadas sentindo que havia algo fundamentalmente diferente em si, sem conseguir nomear o quê. O diagnóstico, quando chega, pode ser ao mesmo tempo aliviante e perturbador: aliviante porque oferece uma estrutura explicativa, perturbador porque reorganiza a leitura de toda uma vida.
A sessão que se segue ao diagnóstico tardio tem uma textura muito específica. Não é só elaboração de um diagnóstico novo, é revisão retroativa de experiências antigas à luz de uma nova compreensão. A infância estranha, as amizades que nunca funcionaram como esperado, os empregos perdidos, os relacionamentos difíceis, tudo isso pode ser relido. Esse processo é profundo e, muitas vezes, doloroso.
Adaptar o setting sem abandonar a clínica
Uma das questões práticas que surge com frequência é sobre adaptação do enquadre. Sessões com mais estrutura explícita, comunicação direta (sem excessiva metáfora ou ironia), clareza sobre o que vai acontecer e quando, essas são adaptações que muitos pacientes autistas encontram mais acessíveis.
Há um temor, em alguns terapeutas, de que adaptar o enquadre signifique abandono da profundidade clínica. Não me parece que seja assim. A profundidade não está na forma específica do enquadre, está na qualidade do vínculo, na honestidade da relação, na capacidade de o terapeuta sustentar a experiência do outro sem precisar traduzi-la para uma norma que não é a dele. Adaptar a comunicação para que o paciente seja efetivamente alcançado é, no fundo, o coração de qualquer boa prática clínica.
O que complica é quando o terapeuta não tem clareza suficiente sobre seus próprios limites e preconceitos. Há uma tendência, que a literatura sobre a prática tem discutido, de interpretar diferenças no processamento social autista como resistência, como esquiva, como déficit de elaboração. Essa leitura pode ser equivocada e pode prejudicar seriamente o trabalho.
O que o Dia Mundial do Autismo convida a perguntar
Abril, com sua data de conscientização, costuma gerar um fluxo de conteúdo, nas redes sociais, na mídia, nas conversas, que oscila entre a sensibilização genuína e a infantilização. O autismo adulto, em particular, ainda é subrepresentado nesse debate público.
Para o clínico, o convite do mês não é necessariamente expandir o número de pacientes autistas que atende, é revisitar honestamente o que sabe e o que não sabe. O que a sua formação incluiu sobre atendimento a adultos autistas? Quais são os limites do seu conhecimento nessa área? Que consultorias, supervisões, referências bibliográficas concretas você buscaria se um paciente autista chegasse ao seu consultório amanhã?
Essas perguntas não têm resposta envergonhadora, o reconhecimento dos próprios limites é, ele mesmo, parte do que faz um profissional confiável. O que seria problemático é não fazê-las.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.