Quando uma pessoa chega ao consultório depois de ter cruzado uma fronteira sem escolher, o que você pergunta primeiro: sobre os sonhos que ela ainda tem, ou sobre os pesadelos que ela não consegue parar?
Essa não é uma pergunta retórica. É o tipo de dilema que psicólogos que trabalham com populações refugiadas e migrantes forçados enfrentam já na primeira sessão. O que o sofrimento dessa pessoa pede é clínico, político, cultural e linguístico ao mesmo tempo. E nenhuma dessas dimensões pode ser ignorada sem custo.
O Dia Mundial dos Refugiados, instituído pela ONU em 2000 e celebrado todo 20 de junho desde 2001, não é apenas uma data de memória. Para quem atende, é um convite a revisar o que sabemos e, sobretudo, o que ainda não sabemos fazer.
O que a clínica chama de luto migratório
Há um conceito que a literatura clínica usa para nomear o que acontece quando alguém perde não uma pessoa, mas um lugar inteiro: o luto migratório. Não se trata apenas de saudade. Trata-se da perda simultânea de território, língua, rede afetiva, status social, projetos de vida e, em muitos casos, da própria identidade profissional construída ao longo de anos.
O que torna esse luto particularmente difícil é que ele não tem rito. Na morte de um familiar, existe funeral, enterro, cerimonial coletivo. No exílio, a perda não é reconhecida socialmente da mesma forma. O país que ficou para trás continua existindo, mas inacessível. Isso gera um luto sem fechamento possível, que a literatura tende a descrever como ambíguo: o objeto perdido não está morto, mas também não está disponível.
Para comunidades venezuelanas, haitianas ou de países africanos de língua não-portuguesa que chegam ao Brasil, esse luto vem frequentemente acompanhado de outros marcadores. Perseguição política, violência, separação familiar, condições precárias na travessia. O acúmulo de eventos potencialmente traumáticos é real e precisa ser avaliado com cuidado, sem a pressa de encaixar tudo numa categoria diagnóstica única.
O risco de psicologizar o que é político
Aqui está um dos pontos mais delicados da clínica do refúgio: a tentação de traduzir em sofrimento individual o que é, fundamentalmente, uma violação coletiva e política.
Quando um psicólogo recebe uma pessoa que foi forçada a deixar seu país por perseguição, fome ou colapso de Estado, está diante de alguém que não adoeceu por sua história pessoal isolada. Adoeceu, em parte, porque estruturas políticas falharam ou foram violentas. Nomear isso como TEPT e tratar com técnicas de reprocessamento pode ser necessário, mas não é suficiente, e quando vira a única lente, é redutor: transforma uma violação coletiva em defeito a ser consertado dentro do paciente, e devolve à vítima a conta de uma falha que não foi dela.
Isso não significa que a clínica não tem lugar. Significa que ela precisa operar com consciência do que pode e do que não pode. O psicólogo não vai resolver a questão habitacional, o visto, a reunificação familiar ou a xenofobia no mercado de trabalho. Mas pode criar um espaço onde o sofrimento seja nomeado sem vergonha, onde a pessoa não precise ser apenas resiliente ou grata, onde a raiva e o luto tenham lugar.
Barreira de língua e a necessidade do intérprete
Uma dimensão que a formação clínica brasileira raramente prepara: o atendimento mediado por intérprete. Para uma pessoa haitiana recém-chegada que fala créole haitiano ou francês, ou para alguém do Congo que fala lingala, a entrevista psicológica em português já é, em si, uma forma de violência simbólica se conduzida sem cuidado.
O uso de intérprete na clínica não é apenas logístico. É um desafio técnico e ético. A transferência acontece com o intérprete presente. A confidencialidade precisa ser negociada. O sentido das palavras muda quando passa por outra pessoa. Instituições como a ACNUR e organizações de saúde mental que trabalham com populações deslocadas têm desenvolvido protocolos para esse contexto, e psicólogos brasileiros que atuam nessa área precisam conhecê-los.
O CFP e os CRPs regionais ainda têm pouco material específico sobre isso. Há um vácuo de orientação profissional que afeta diretamente quem está na ponta do atendimento, seja no consultório particular ou nas redes do SUS.
O que o SUS e a RAPS podem (e ainda não conseguem)
A Rede de Atenção Psicossocial, a RAPS, é o principal dispositivo público de saúde mental no Brasil. Ela inclui os CAPS, os serviços residenciais terapêuticos, os ambulatórios. Em teoria, esses dispositivos atendem a todos, incluindo pessoas em situação de refúgio.
Na prática, há barreiras significativas. A documentação exigida em alguns serviços exclui quem ainda não regularizou sua situação. A falta de profissionais com formação em clínica intercultural limita a qualidade do cuidado. A rotatividade nos serviços públicos impede a construção de vínculo, que é especialmente crítica para populações que já perderam tanto.
Iniciativas pontuais existem. Há experiências de parceria entre prefeituras, ACNUR e organizações da sociedade civil que criaram grupos de acolhimento psicossocial, especialmente em cidades com maior concentração de migrantes forçados como São Paulo, Manaus e Boa Vista. Mas são ilhas. Não há uma política nacional de saúde mental para refugiados que funcione de forma sistemática.
O que o psicólogo brasileiro pode fazer agora
Sem romantizar e sem paralisar. Algumas orientações concretas:
- Avalie antes de diagnosticar. O sofrimento pós-migratório nem sempre preenche critérios para um transtorno. Às vezes é resposta normal a condições anormais. A distinção importa para não medicalizar indiscriminadamente.
- Busque formação específica. Psicologia transcultural, clínica do trauma, trabalho com intérpretes. Não é improviso bem-intencionado que resolve.
- Articule com a rede. O consultório sozinho não dá conta. A dimensão de moradia, documentação e proteção legal é parte do cuidado mesmo que não seja sua atribuição direta.
- Cuide de você. O trabalho com refugiados tem alto potencial de trauma vicário. Supervisão e espaço de elaboração são condição de sustentabilidade, não luxo.
O 20 de junho não pede do psicólogo brasileiro uma postura heroica. Pede honestidade sobre o que a clínica alcança e o que ela não alcança. E, onde ela alcança, que alcance de verdade: com presença, com rigor, com a consciência de que a pessoa na sua frente não é um caso clínico. É alguém que carrega um mundo que foi destroçado, e que escolheu, mesmo assim, estar ali.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.