Existe uma cena que ocorre com frequência nos consultórios e raramente é discutida com profundidade na formação: o paciente começa a chorar, e o terapeuta não sabe bem o que fazer com aquilo. Fica em silêncio? Oferece lenço? Faz uma pergunta? Aguarda? Intervém? A incerteza nesse momento pode ser paralisante, e o que o terapeuta faz, ou deixa de fazer, impacta diretamente o que aquele choro vai se tornar na sessão.
A formação em psicologia clínica, em geral, prepara razoavelmente bem o terapeuta para as grandes elaborações verbais, para os momentos de insight, para as resistências evidentes, para os impasses que chegam em palavras. O que ela costuma deixar menos iluminado é exatamente a textura dos momentos não verbais: o choro, o silêncio longo, a raiva que não encontra frase, o riso inadequado.
O lenço e o que ele carrega
Uma das primeiras perguntas que surge em supervisão, e que indica quanto esse tema é carregado de ambiguidade, é sobre o lenço. Oferecer ou não oferecer? Levantar ou esperar?
Há quem argumente que oferecer o lenço imediatamente é um gesto de cuidado genuíno. Há quem sustente que isso pode comunicar, involuntariamente, que o choro é algo a ser contido, enxugado, encerrado logo, e que o terapeuta não está muito confortável com o que está vendo. A verdade é que não existe resposta universal.
O que me parece clinicamente mais honesto é que o gesto conta menos do que a qualidade da presença que o acompanha. Um lenço oferecido de forma acolhedora, sem pressa, com olho no paciente e não no choro, pode ser o gesto certo. Um lenço empurrado na direção do paciente por ansiedade do terapeuta pode interromper algo que precisava continuar.
O que o choro está fazendo ali
Antes de pensar na intervenção, vale parar um momento na pergunta: o que esse choro está fazendo nessa sessão? Nem todo choro é igual. Há o choro de alívio, que vem quando algo que estava represado finalmente encontra saída. Há o choro de dor, que precisa ser sustentado, não apressado para o insight. Há o choro de raiva contida, que é prima-irmã do choro de impotência. E há, também, o choro que é comunicação dirigida ao terapeuta, que testa, às vezes, se aquela relação aguenta o peso do sofrimento real.
Winnicott descreveu algo que chamou de "regressão ao ambiente favorável", a capacidade do setting terapêutico de sustentar estados que o sujeito não conseguiu atravessar sozinho no momento em que foram vividos. O choro, muitas vezes, é o sinal de que o paciente finalmente se permite regredir nesse sentido, de que o ambiente parece seguro o suficiente para deixar vir o que vinha sendo segurado.
Nesse caso, a pior coisa que o terapeuta pode fazer é transformar o momento em trabalho verbal antes do tempo. Traduzir o choro em interpretação no exato instante em que ele ocorre pode ser uma forma de não suportar o afeto, de se refugiar na cognição quando o corpo do paciente pede apenas presença.
Após o choro: como continuar a sessão
O que acontece depois também é matéria clínica. Quando o choro se acalma, o paciente frequentemente fica num estado de vulnerabilidade particular, um pouco envergonhado às vezes, um pouco aliviado, incerto sobre o que vem agora. Como o terapeuta navega esse momento moldará o que o paciente leva para casa.
Algumas perguntas abertas, oferecidas com leveza, podem ajudar o paciente a se reorientar sem obrigá-lo a performar recuperação. "O que está acontecendo com você agora?" é diferente de "Você conseguiu identificar de onde vem esse choro?". A primeira convida à experiência presente; a segunda já pede elaboração, análise, distância, pode ser prematura.
Há também a possibilidade de simplesmente nomear o que se observou, sem interpretá-lo: "Isso veio com muita força." Não é uma intervenção grandiosa, mas sinaliza que o terapeuta viu, que não desviou o olhar, que o afeto foi recebido.
Na supervisão clínica que conduzo, esse é um dos temas que retorna com mais frequência entre terapeutas em formação e também entre profissionais com anos de consultório. A razão, me parece, é simples: o choro do paciente acorda algo no terapeuta. Às vezes é identificação, às vezes é angústia, às vezes é ternura. Trabalhar com esses afetos contratransferenciais, sem negá-los e sem deixá-los guiar a intervenção de forma irrefletida, é parte do que torna a clínica ao mesmo tempo exigente e profundamente humana.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.