Uma quarta-feira de fevereiro. Ela tinha 23 anos, primeira sessão. Sentou no divã e disse, antes mesmo de eu perguntar qualquer coisa: "Eu sei que tenho TDAH. Vi cinco vídeos esta semana e me identifiquei com cada um." Mostrou os vídeos. Mostrou as listas. Mostrou a página do Reddit onde havia entrado por sugestão do algoritmo.

Esse momento se repete em consultórios brasileiros com uma frequência que não tinha em 2019. O paciente já chega com a categoria diagnóstica embrulhada em letra de meme, capa de carrossel, áudio viral de 32 segundos.

O que está em jogo

Há duas formas igualmente ruins de errar nessa primeira sessão. A primeira é o desprezo. "Mas isso é só TikTok. Vamos falar do que realmente importa." Quem faz isso desconhece que a busca pelo autodiagnóstico costuma carregar sofrimento real.

A segunda é a ratificação automática. "Você se identifica com TDAH? Então provavelmente é TDAH." Quem faz isso desconhece que a identificação com sintomas catalogados em vídeo de 32 segundos não é processo diagnóstico válido.

Trabalhar com a hipótese, não contra ela

A função da primeira sessão é reabrir a hipótese para investigação clínica conjunta. Três movimentos discretos importam mais do que qualquer protocolo de triagem.

Primeiro: validar a busca sem validar a conclusão. "Faz sentido você ter procurado entender o que está acontecendo." Essa pergunta abre a sessão.

Segundo: mapear o sofrimento concreto, não a categoria. Aqui você sai do nome e entra no funcionamento.

Terceiro: introduzir a complexidade do diagnóstico psiquiátrico sem virar professor. Não é aula. É convite para um processo.

A primeira sessão como ato editorial

A primeira sessão é, em muitos sentidos, um ato editorial. Você está decidindo, em tempo real, o que entra na conversa clínica e o que fica de fora. O paciente trouxe uma pauta. Sua função não é aceitar a pauta como veio nem rasgá-la na frente dele. É reabrir a pauta para investigação conjunta.

A clínica precisa ser mais rápida que isso. Não para chegar primeiro no diagnóstico. Para fazer com que o tempo clínico volte a importar, mesmo quando o paciente já traz uma resposta pronta.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.