Todo ano, nas duas semanas que antecedem o Carnaval, o consultório muda de tom. Alguns pacientes chegam agitados, com planos que transbordam os limites da sessão. Outros ficam retraídos, como se o festejo coletivo iluminasse por contraste tudo aquilo que lhes falta. Outros, ainda, simplesmente não aparecem, mandam mensagem de última hora ou somem sem aviso, reaparecendo em março com uma mistura de culpa e explanação.

Durante anos tratei esses padrões como ruído, variações do calendário que perturbavam o ritmo do trabalho. Com o tempo, passei a entendê-los como material clínico rico, e a me perguntar o que cada um deles comunica sobre o mundo interno de cada paciente.

A euforia que antecede e o vazio que segue

Há pacientes para quem o Carnaval funciona como válvula de escape de uma tensão que vem se acumulando desde o início do ano. A antecipação da folia aparece na sessão como aceleração, mais assuntos, mais energia, menos capacidade de permanecer num tema por muito tempo. Algo na iminência da ruptura da rotina libera um fluxo que em outras semanas está represado.

Clinicamente, isso pode ser informativo. A relação de cada pessoa com a ruptura de rotina, com a permissão que o Carnaval concede socialmente para ser outro, para exceder, para se dissolver na multidão, diz algo sobre como ela lida com os limites no dia a dia. Quem vive esperando a folia para se sentir vivo pode estar nos contando, indiretamente, como é árido o restante do tempo.

O inverso também se apresenta. Depois do Carnaval, particularmente na Quarta de Cinzas e nos dias que a seguem, alguns pacientes chegam com uma espécie de ressaca que vai além do físico. É uma queda de tensão que pode ter coloração depressiva, o fim da exceção que volta ao cotidiano ordinário, a visibilidade repentina de um vazio que a folia havia tampado.

Os que somem e o que o sumiço comunica

As faltas não avisadas, que aumentam nessa época, costumam gerar nos terapeutas reações diversas: irritação, preocupação, até alívio ocasional. O que me parece mais útil clinicamente é não tratar o sumiço como simplesmente uma questão de enquadre a ser resolvida no retorno, mas como algo que também faz parte do material.

Pacientes que têm dificuldade com vínculos, que oscilam entre a aproximação e a fuga, podem usar o Carnaval como pretexto socialmente aceito para testar o que acontece quando desaparecem. Voltam em março observando, às vezes sem saber que estão observando, como o terapeuta vai receber o retorno. Com cobrança? Com alívio demais? Com indiferença?

A forma como o terapeuta maneja o retorno após a ausência carnavalesca pode ser tão significativa quanto qualquer interpretação na sessão. Não se trata de ignorar o que ocorreu nem de transformar o assunto em confronto. Trata-se de abrir espaço para que o paciente traga, se quiser, o que viveu, e de manter o vínculo suficientemente estável para que o retorno valha a pena.

Fevereiro e o fim do verão como contexto clínico

O Carnaval no Brasil é inseparável de fevereiro, do verão que ainda não acabou, do calor que pressiona corpos e disposições. A combinação de férias escolares que terminam, rotinas que se reorganizam e a folia que se aproxima cria um período de transição particular, nem exatamente o início do ano (que janeiro já inaugurou) nem ainda a retomada plena da rotina.

Esse estado de limiar aparece no consultório. Há pacientes que usam esse momento para revisitar planos que não saíram do papel em janeiro. Outros chegam já cansados, sem ter começado direito. E há aqueles que simplesmente precisam que a sessão de fevereiro seja um lugar de pausa, onde nem o passado nem o futuro imediato precisem ser resolvidos agora.

A sabedoria clínica, nesse caso, é não forçar produção onde o momento pede outra coisa. Fevereiro, com toda a sua ambiguidade, tem textura própria. O consultório que consegue acolher essa ambiguidade sem pressa de transformá-la em trabalho visível cumpre, silenciosamente, uma função fundamental: ser o lugar que permanece, mesmo quando tudo lá fora pulsa e se agita.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.