Quando foi a última vez que você perguntou diretamente ao seu paciente idoso se alguém em casa o humilhava?
A pergunta incomoda porque evoca um território que a clínica ainda navega com cautela: a violência psicológica intrafamiliar contra a pessoa idosa. Não é negligência do profissional, nem insensibilidade. É, em parte, o resultado de décadas de formação em que o idoso aparecia nas apostilas como sujeito de cuidado, raramente como alvo de uma dinâmica abusiva conduzida pelos próprios filhos, cônjuges ou netos.
Junho Violeta, campanha que o Brasil realiza ao longo de todo este mês, chega com um convite desconfortável para quem atende: rever a própria escuta.
O que o dado diz, com cuidado
Os números disponíveis apontam para um crescimento expressivo das notificações de violência contra a pessoa idosa no Brasil nos últimos anos. O Disque 100, linha do Ministério dos Direitos Humanos, registra sistematicamente esse aumento. A violência psicológica, que inclui humilhações, ameaças, controle e isolamento deliberado, aparece de forma consistente entre os tipos mais relatados, ao lado da negligência.
Há indícios de que grande parte dos episódios ocorre no ambiente doméstico e envolve familiares diretos, com destaque para filhos e filhas. Isso não surpreende quem atende: é exatamente o que o paciente conta na segunda ou terceira sessão, depois que a confiança se instala.
O problema é que, muitas vezes, nem o paciente nem o terapeuta chamam isso de violência.
O que o paciente diz, e o que não diz assim
"Minha filha é estressada, coitada." "Meu filho tem lá os problemas dele." "Eu entendo, eles trabalham muito."
Esses são, com frequência, os primeiros enquadramentos que a pessoa idosa usa para descrever situações que, analisadas com mais cuidado, envolvem humilhação sistemática, decisões tomadas à revelia da sua vontade, isolamento progressivo do convívio social ou ameaças veladas de abandono e institucionalização.
A autonomia, conceito central tanto na bioética quanto na clínica contemporânea, é exatamente o que está em jogo. A pessoa idosa que tem sua agenda controlada pelos filhos, que não pode decidir sobre seu próprio dinheiro, que é ignorada quando expressa uma opinião sobre o próprio tratamento de saúde, está sofrendo uma forma de violência. Mas o discurso familiar dominante muitas vezes recobre isso com o nome do cuidado.
O clínico precisa de vocabulário para isso. E, antes do vocabulário, de permissão interna para ver.
O que a formação ainda não treinou bem
O campo do envelhecimento cresceu muito nas últimas duas décadas no Brasil. A Política Nacional do Idoso existe desde 1994, e o Estatuto da Pessoa Idosa, atualizado em 2022, traz garantias importantes. O CFP tem publicações e resoluções que orientam o trabalho do psicólogo nesse território.
Mas há indícios, reforçados pela experiência de quem atende, de que a formação em psicologia ainda subestima a especificidade do abuso contra a pessoa idosa. Os estágios em saúde do idoso são raros. A violência intrafamiliar é ensinada, em geral, com foco na criança e na mulher em situação de violência doméstica.
O resultado prático: o terapeuta que nunca foi treinado para reconhecer os sinais específicos no idoso, não por falta de sensibilidade, mas por falta de exposição, pode deixar sessões inteiras sem nomear o que está ouvindo.
Sinais que a literatura e a clínica costumam associar a esse quadro: mudanças de humor atribuídas a "problemas de família", isolamento progressivo, insônia, medo de expressar preferências, hesitação antes de falar sobre certas pessoas, relatos de humilhação fraseados como confissão de fraqueza própria. Nenhum deles, isolado, prova abuso. Eles pedem é uma segunda escuta.
O que fazer com isso na prática
Primeiro: perguntar. A pergunta direta, feita com cuidado e no momento certo do vínculo terapêutico, é o instrumento mais simples e menos usado. "Alguém em casa já disse algo que te fez sentir menos capaz do que você é?" é uma entrada possível, mais acessível do que a palavra violência, que pode ativar defesas antes de a conversa acontecer.
Segundo: conhecer o fluxo de notificação. O psicólogo não é delegado, mas é profissional de saúde com obrigação ética de comunicar situações de risco. O Estatuto da Pessoa Idosa prevê canais. Disque 100 e CRAS são pontos de entrada no território. O CFP tem orientações. Saber disso antes de precisar evita paralisia no momento em que o paciente finalmente conta.
Terceiro: revisar o próprio contrato com a narrativa familiar. Quando o filho acompanha o pai idoso à consulta e narra a situação de modo coerente e simpático, há uma tendência clínica a assumir aquela perspectiva como referência. Isso não é erro moral, é cognição. Mas é exatamente onde a escuta precisa de um segundo movimento: o que o paciente diz quando está sozinho?
Junho como convite, não como campanha
Campanhas têm limite. Elas marcam o calendário, mobilizam por trinta dias, e a vida segue.
O convite que Junho Violeta faz à clínica é mais lento e mais exigente: rever como a categoria idoso foi construída no próprio olhar profissional. Um sujeito com história, desejo, autonomia e direito a nomear o que acontece com ele, mesmo que a família prefira outro nome para isso.
Isso não cabe num mês. Mas pode começar numa sessão.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.