A adolescência, na psicologia do desenvolvimento ocidental, costuma ser descrita como período de construção de identidade, de separação progressiva da família de origem, de formação de vínculos com o grupo de pares, de experimentação que precede a consolidação de um projeto de vida autônomo. Erikson colocou a crise identidade versus confusão de papéis no centro dessa fase. Há décadas de pesquisa validando e refinando esse modelo.
O que acontece quando a crise identitária é dupla, não apenas "quem sou eu?" mas "a qual mundo pertenço, e o que cada um me cobra em troca do pertencimento?"
Essa é a pergunta que jovens indígenas que circulam entre aldeia e cidade, entre escola diferenciada e universidade pública, entre a língua materna e o português, frequentemente carregam. Não de modo articulado, necessariamente, mas como uma pressão que se manifesta em sofrimento, em evasão escolar, em uso problemático de álcool, em episódios que chegam ao serviço de saúde sem esse enquadramento.
O custo da tradução permanente
Há uma metáfora que ouço com frequência de jovens indígenas universitários: a de estar sempre traduzindo. Não apenas do tukano para o português ou do guarani para o institucional, mas traduzindo a si mesmo. Explicar para colegas de faculdade o que é uma roça, o que é um pajé, o que significa que a terra não pertence a você mas você pertence à terra. Ou, na direção inversa, explicar para a família por que você veio à cidade, o que é uma dissertação de mestrado, por que você está demorando a voltar.
Essa tradução permanente não é apenas cognitivamente custosa, é afetivamente desgastante. Há indícios, na literatura sobre identidade bicultural, de que jovens que navegam entre dois contextos culturais com exigências contraditórias podem desenvolver estratégias adaptativas diversas: alguns constroem uma identidade bicultural integrada, que é cognitivamente sofisticada e fonte de resiliência; outros experimentam fragmentação identitária que se aproxima do que clinicamente chamaríamos de sofrimento difuso.
O que a aldeia cobra, o que a cidade cobra
A expectativa da comunidade de origem sobre o jovem que vai estudar fora é complexa. Em muitos contextos, esse jovem é investimento coletivo, vai à cidade para voltar com conhecimento que sirva ao povo. Mas a cidade também cobra: cobrar adaptação, cobrança de assimilação, de que você abra mão de marcas de diferença para ser aceito. Usar batom, cortar o cabelo de outra forma, não falar a língua materna no corredor.
O jovem que volta à aldeia nas férias pode se sentir já diferente, percebe que absorveu formas de pensar e de se relacionar que a comunidade estranha. O jovem que fica na cidade pode se sentir deslocado, percebe que os colegas não entendem suas referências, e aprende a guardá-las.
Esse trânsito não é necessariamente patológico. Muitos jovens o atravessam com criatividade e generosidade, e emergem dele com uma perspectiva sobre o mundo que é recurso real. Mas sem suporte, e raramente há suporte adequado nas universidades, nos serviços de saúde mental, nas políticas públicas de permanência estudantil, o trânsito pode virar isolamento.
O que a clínica precisa aprender
Se você atende adolescentes indígenas em qualquer contexto, escola, serviço de saúde, clínica, algumas perguntas que raramente fazemos podem abrir muito: Você mora onde você cresceu? Você fala com frequência a língua que aprendeu primeiro? Quando você imagina sua vida daqui a dez anos, você se vê onde? Essas perguntas não são protocolares, são convites para que o jovem nomeie o território afetivo que habita, que é sempre mais complexo do que o endereço no prontuário indica.
A psicologia do desenvolvimento que não conhece essa complexidade vai, na melhor das hipóteses, oferecer respostas genéricas para perguntas específicas. Na pior, vai patologizar o que é adaptação criativa a condições difíceis, e desperdiçar a oportunidade de ser útil.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.