No começo de abril, o calendário da saúde pública lembra que existe algo chamado Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Nas redes sociais, aparecem ícones azuis, posts de famílias, campanhas de inclusão. No Brasil, há algo que fica de fora dessa conversa quase sempre: a pergunta sobre como o autismo é reconhecido, ou não reconhecido, em crianças que vivem fora do eixo urbano de classe média, em especial crianças indígenas e de comunidades rurais.

Diagnóstico é uma operação cultural, além de clínica. Ele depende de quem olha, de quais instrumentos usa, de qual repertório comportamental toma como referência. Quando uma criança Yanomami de três anos não mantém contato visual da forma esperada por um instrumento desenvolvido nos Estados Unidos, o que estamos medindo exatamente?

O problema dos instrumentos

Os principais instrumentos de triagem e avaliação diagnóstica do autismo utilizados no Brasil são adaptações de ferramentas desenvolvidas originalmente em contextos anglófonos, com populações de determinado perfil socioeconômico e cultural. A adaptação e validação para o contexto brasileiro existe e tem avançado, mas ainda há lacunas importantes quando se trata de populações indígenas, quilombolas ou de regiões com dinâmicas socioculturais muito distintas do padrão urbano das amostras de validação.

Isso não significa que o autismo não existe nessas populações, existe, e é subdiagnosticado. Significa que o subdiagnóstico pode ter duas causas opostas que coexistem: crianças autistas que não são identificadas porque os serviços não chegam ao território; e crianças não autistas cujo comportamento é lido como sinal de transtorno por avaliadores que desconhecem as normas culturais daquela comunidade.

O que comportamento típico significa em cada contexto

Em algumas culturas indígenas amazônicas, crianças pequenas são criadas em ambientes de muito estímulo coletivo, com múltiplos cuidadores e pouca ênfase na díade verbal direta adulto-criança que os instrumentos de triagem costumam valorizar. O contato visual intenso e prolongado, que em certos contextos culturais é marcador de atenção e engajamento, em outros pode ser considerado desrespeitoso ou agressivo.

Um avaliador que não conhece essa diferença pode interpretar como déficit de atenção social algo que é, na verdade, uma variação cultural normativamente esperada. O inverso também acontece: comportamentos que uma família indígena identifica como "diferente" e que causam sofrimento real à criança e ao grupo podem não ser nomeados como autismo porque o serviço de saúde mais próximo fica a horas de barco.

Não estou argumentando que o autismo é culturalmente relativo, a neurobiologia do desenvolvimento tem padrões que transcendem cultura. Estou argumentando que o reconhecimento clínico de autismo é, inevitavelmente, mediado por cultura. E que essa mediação, no Brasil, ainda não foi levada a sério o suficiente.

O que a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas diz, e o que falta

A PNASPI reconhece, em princípio, a necessidade de serviços de saúde culturalmente adequados para povos indígenas. A realidade dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) é, em muitos casos, bastante distante desse princípio. Profissionais de saúde mental raramente chegam às aldeias. Quando chegam, nem sempre têm formação em diversidade cultural. E quando existe algum acompanhamento, raramente inclui psicólogos do desenvolvimento com experiência em populações indígenas.

Isso não é crítica ao profissional que está lá, em condições precárias, fazendo o que pode. É uma observação estrutural: o campo da psicologia do desenvolvimento no Brasil formou poucos profissionais capazes de atuar nessas interfaces. A grade curricular dos cursos de psicologia raramente inclui etnopsicologia, diversidade cultural no desenvolvimento, ou práticas de avaliação com populações não-WEIRD (Western, Educated, Industrialized, Rich, Democratic, o acrônimo que a pesquisa internacional usa para nomear as populações com as quais a maior parte dos estudos é feita).

Abril é um bom momento para nomear essa lacuna, não como denúncia, mas como convite. A psicologia do desenvolvimento brasileira tem muito a aprender com os territórios que ainda não alcançou.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.