Aqui em Manaus, no meio de uma supervisão com estagiários, uma aluna descreveu um caso que ficou comigo: uma menina de sete anos chegara ao serviço encaminhada pela escola por "dificuldades de atenção". Na anamnese, descobriu-se que a criança morava com a avó desde os dois anos, enquanto a mãe trabalhava em outra cidade. A avó tinha sessenta e três anos, diabetes controlada e, segundo ela mesma, "não sabia mais bem se era mãe ou avó". A pergunta que a estagiária trouxe era clínica, mas tocava num fenômeno bem maior do que um caso.
Arranjos familiares multigeracionais são comuns no Brasil. Avós, em especial avós mulheres, ocupam com frequência o papel de cuidadoras primárias de netos, seja por ausência parental, migração, situação econômica ou ruptura familiar. Os censos do IBGE registram, de forma recorrente, uma parcela relevante de domicílios em que a pessoa idosa é a responsável pelo lar onde vivem crianças pequenas. É uma realidade urbana e rural, presente em todas as regiões, mas mais intensa nas periferias das grandes cidades e em contextos de alta vulnerabilidade econômica.
O que o vínculo intergeracional oferece à criança
Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, a presença de avós engajados tende a ser protetora. Não porque os avós sejam substitutos perfeitos dos pais, mas porque o vínculo com adultos de referência estáveis é, em si, um fator de segurança. Bowlby, ao elaborar a teoria do apego, deixou espaço para a pluralidade de figuras de apego: a criança pode formar laços seguros com mais de um adulto, e esses laços funcionam como base segura para a exploração do mundo.
A avó que conta causos, que tem paciência para uma história que a criança já ouviu quatro vezes, que carrega na memória uma tradição de família, oferece algo que vai além do cuidado imediato. Oferece continuidade narrativa, identidade e pertencimento. Vygotsky nos lembrava que o desenvolvimento cognitivo se dá na relação com outro mais experiente: e a avó, com sua bagagem cultural, é frequentemente a pessoa mais experiente que a criança tem perto.
Parte da literatura do desenvolvimento associa vínculos intergeracionais sólidos a maior repertório emocional, capacidade de regulação e senso de identidade cultural, embora convém dizer que essa é uma associação observada, não uma relação de causa provada: a mesma criança que tem uma avó presente costuma ter, em torno dela, outros fatores de proteção difíceis de isolar. Feita essa ressalva, o ponto é particularmente relevante no contexto brasileiro, onde muitas avós são guardiãs de tradições, línguas, religiões de matriz africana ou indígena, práticas alimentares e modos de se relacionar que não chegariam à criança de outra forma.
O que a psicologia do desenvolvimento lifespan diz sobre quem cuida
Mas a análise que a psicologia do desenvolvimento precisa fazer não é só sobre a criança. É também sobre a avó.
Paul Baltes, um dos arquitetos da perspectiva lifespan, argumentou que o desenvolvimento não para na juventude: ocorre ao longo de toda a vida, com ganhos e perdas em proporções que mudam com a idade. Uma pessoa de sessenta anos não está em declínio puro; está em reconfiguração. A sabedoria, a regulação emocional, a capacidade de priorizar o que importa são áreas que tendem a se afinar com o tempo.
Cuidar de um neto pode ser, para muitas avós, uma fonte genuína de propósito e vitalidade. A literatura de envelhecimento ativo sugere que papéis sociais significativos estão associados a maior bem-estar em pessoas idosas. Avós que se sentem necessárias, que veem a criança crescer, que participam ativamente de uma história de família, relatam com frequência que essa função lhes dá razão de acordar.
Isso é real. E não deve ser romantizado.
A sobrecarga que não aparece no relatório escolar
Porque há outro lado, e é preciso nomeá-lo com cuidado.
A avó que cria o neto no Brasil raramente o faz em condições ideais. Na maioria dos casos, faz isso com renda limitada, sem apoio institucional, sem reconhecimento formal e com a saúde do próprio corpo exigindo atenção crescente. É ela quem vai à reunião da escola, quem leva ao posto, quem acorda de madrugada quando a criança tem febre, quem administra a saudade que a criança sente da mãe sem saber bem como nomear.
Essa sobrecarga tem nome na literatura: parentalidade de segunda ordem, ou, em termos mais diretos, avosidade compulsória. Não é escolha livre, na maior parte dos casos. É a resposta a uma lacuna que o Estado, o mercado de trabalho e a organização familiar não conseguem preencher. E ela cobra preço.
Estudos com avós cuidadoras, especialmente os realizados em contextos de baixa renda, indicam taxas mais elevadas de sintomas depressivos, sobrecarga física e sensação de isolamento social em comparação com pares da mesma faixa etária que não assumiram esse papel. O prazer no cuidado e o sofrimento podem coexistir. Frequentemente coexistem.
A clínica precisa saber perguntar. Quando atendemos a criança, ou quando atendemos a avó, precisamos ver o sistema inteiro: o que sustenta esse arranjo, o que ele custa e o que ele oferece.
O que a psicologia pode fazer
O Dia dos Avós não precisa ser ocasião de elogio vazio. Pode ser ocasião de visibilidade.
Para os profissionais que trabalham com crianças, vale perguntar quem são as figuras de cuidado reais no cotidiano daquela criança. Não presumir que a família é nuclear. Incluir a avó nas conversas sobre desenvolvimento, e não apenas como informante colateral, mas como participante de um processo que também é dela.
Para quem trabalha com adultos idosos, vale investigar os papéis que a pessoa exerce e o que esses papéis custam. A avó que chega ao consultório relatando cansaço, insônia ou tristeza pode estar carregando uma criança nas costas, literal e figuradamente, sem que isso apareça como queixa principal.
O SUS tem tentado, por meio de políticas de atenção básica e dos CAPS, ampliar o olhar para contextos de cuidado. Mas a lacuna entre o que existe e o que é necessário ainda é grande, especialmente fora dos grandes centros.
Volto à menina de sete anos de Manaus. O que ela precisava não era de um diagnóstico. Precisava que alguém perguntasse à avó como ela estava. Quando a estagiária fez essa pergunta simples, a avó, segundo o relato, ficou em silêncio por um momento e depois disse: "Ninguém nunca perguntou isso".
O vínculo intergeracional é poderoso. A pergunta que a psicologia do desenvolvimento precisa continuar fazendo é: poderoso para quem, em quais condições, e a que custo?
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.