Quando pensamos em psicologia do desenvolvimento, nossa cabeça vai, quase automaticamente, para imagens de bebês engatinhando, crianças fazendo birra ou adolescentes em crise de identidade. Há nomes inteiros dedicados a essas fases: Piaget cartografou a inteligência infantil, Vygotsky mostrou como o social molda o cognitivo nas primeiras décadas de vida, Erikson esboçou os grandes desafios de cada etapa da existência. Mas o que acontece quando chegamos ao final dessa cronologia? A maioria dos manuais encerra o capítulo na vida adulta jovem, como se o ser humano, a partir de certa idade, deixasse de se tornar algo, passando apenas a se desgastar.
Junho Violeta é uma campanha brasileira que chama atenção para a violência contra a pessoa idosa, especialmente nas semanas que culminam no Dia Mundial de Conscientização desta violência, estabelecido pela ONU em 2011 e marcado em 15 de junho. A data é necessária, urgente e muito bem-vinda. Mas há uma camada que raramente aparece nos debates de junho: a violência começa, muitas vezes, bem antes do ato explícito. Começa na ideia de que a velhice é uma fase de perdas, e não de desenvolvimento. Começa quando a psicologia, a medicina e a cultura em geral olham para o idoso e enxergam déficit onde há complexidade.
O desenvolvimento não tem data de validade
Paul Baltes, pesquisador alemão com contribuições fundamentais para a gerontologia psicológica, dedicou décadas a demonstrar que o desenvolvimento humano é um processo que dura a vida inteira. A perspectiva do lifespan, ou desenvolvimento ao longo de toda a vida, parte de uma premissa aparentemente simples, mas com consequências enormes: não existe uma fase "completa" do ser humano. Em cada etapa, há ganhos, perdas, reorganizações e novas possibilidades, inclusive nas décadas finais.
Erikson, ainda mais antigo na tradição desenvolvimentista, mapeou tarefas psicológicas que se estendem por toda a vida adulta. Na maturidade, o conflito central que ele descreveu é o da generatividade contra a estagnação: a capacidade de gerar, transmitir, contribuir para o que virá depois, seja pela criação, pelo cuidado das gerações mais jovens, pela transmissão de conhecimento ou pela elaboração de um legado. E na velhice, a última etapa do seu modelo, o conflito que ele nomeou é o da integridade contra o desespero, o trabalho de olhar a própria vida e reconciliar-se com ela. Nenhum dos dois é eufemismo. São tarefas psicológicas reais. E há idosos que as realizam com uma densidade que nenhum adolescente em crise de identidade conseguiria alcançar.
O problema é que este campo teórico, robusto e bem documentado no plano acadêmico, raramente chega ao imaginário social, ao treinamento de profissionais de saúde ou às políticas públicas. Quando chega, tende a aparecer de forma instrumental: ensina-se que o idoso "ainda pode contribuir", mas por razões de utilidade, não de dignidade. A pergunta "o que este sujeito ainda está construindo de si mesmo?" raramente é feita.
Contexto amazônico: o velho como memória viva
Quem cresceu no interior do Amazonas sabe que o idoso ocupa um lugar epistemológico insubstituível. Em comunidades ribeirinhas ou indígenas da região, o conhecimento do território, das plantas medicinais, das rotas fluviais e dos ciclos da natureza vive, antes de tudo, nas pessoas mais velhas. Essa não é uma romantização: é um dado de como certos saberes sobrevivem onde o Estado não chegou ou chegou tarde. O ancião não é um arquivo encerrado, é um interlocutor ativo.
A urbanização acelerada de Manaus e de outras capitais amazônicas trouxe consigo um rearranjo violento desse lugar. O idoso que antes ocupava posição central na transmissão de saber passou, em poucas gerações, a ser visto como obstáculo à modernidade, como alguém que "não entende as coisas de hoje". A psicologia, quando formada por um currículo que ignora o envelhecimento como fase de desenvolvimento, não oferece ferramentas para questionar esta narrativa. Confirma-a.
Não por acaso, o Estatuto da Pessoa Idosa, legislação brasileira que garante direitos a quem tem 60 anos ou mais, precisa travar batalha constante contra práticas cotidianas de invisibilização. A lei existe. A cultura que a cumpriria ainda está sendo construída.
O que a clínica pode fazer diferente
Quando um profissional de psicologia recebe uma pessoa de 70, 75, 80 anos, a pergunta clínica muda radicalmente se for informada pela perspectiva do desenvolvimento. Em vez de "o que este sujeito perdeu?", a pergunta se torna: "o que este sujeito ainda está elaborando sobre si mesmo e sobre o mundo?". A primeira pergunta leva a um diagnóstico de déficit. A segunda abre uma escuta.
A literatura clínica especializada em gerontologia psicológica, ainda pouco presente nos currículos brasileiros de graduação em psicologia, sugere que idosos têm capacidades de regulação emocional frequentemente superiores às de adultos jovens. Há indícios de que a perspectiva temporal mais curta, longe de ser apenas geradora de ansiedade, pode reorganizar prioridades de forma adaptativa, levando a escolhas mais alinhadas com valores pessoais. Esta não é uma visão ingênua sobre a velhice. Não apaga o sofrimento, as perdas reais, as doenças, a dependência que pode vir. Apenas recusa que o sofrimento seja a única história contada.
O Conselho Federal de Psicologia tem avançado, nos últimos anos, em normativas que reconhecem a especificidade do atendimento psicológico a pessoas idosas. A preocupação institucional está em construção. O que falta, com frequência, é que essa construção chegue à sala de espera, à relação cotidiana entre profissional e paciente, e sobretudo ao olhar que precede qualquer técnica.
Junho Violeta e a raiz cultural
Campanhas de conscientização têm um papel insubstituível. Mas seu limite está em que denunciam o sintoma sem nomear a estrutura que o produz. A violência contra a pessoa idosa, seja ela física, financeira, institucional ou de negligência, tem raízes em uma cultura que não consegue ver o velho como sujeito. Como alguém que sente, que pensa, que ainda se transforma, que ainda tem projetos, que ainda tem o direito de estar em desenvolvimento.
Enquanto a psicologia não incorporar de forma sistemática o lifespan em sua formação básica, enquanto o envelhecimento seguir sendo tratado como tema de especialidade opcional e não como fundamento do entendimento humano, estaremos tratando sintomas e ignorando a ferida. Junho Violeta merece mais do que cartazes. Merece uma revisão do que acreditamos sobre o que é ser velho no Brasil.
Aqui em Manaus, quando um velho senta na calçada e começa a falar, as crianças param. Sabem, de algum modo anterior à teoria, que há algo sendo transmitido que não vai se repetir. A psicologia ainda está aprendendo a nomear o que as crianças já intuem. E enquanto não aprende, segue formando profissionais que, diante de um homem de oitenta anos, vão saber medir tudo que ele perdeu e quase nada do que ele ainda está construindo. Isso também é uma forma de violência. Só não tem data no calendário.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.