Quando a psicologia do desenvolvimento fala em apego, fala, na maior parte das vezes, de uma díade específica: mãe e bebê, em ambiente doméstico relativamente isolado, com práticas de cuidado que incluem carregar no colo de certa forma, amamentar por certo tempo, responder ao choro de certo modo. Bowlby desenvolveu sua teoria em contexto britânico do pós-guerra. Ainsworth fez seus experimentos em Baltimore e em Uganda, e o contraste entre os dois contextos, embora tenha sido revelador, gerou mais perguntas do que costuma ser reconhecido.

O que fazemos com modos de cuidado que não cabem nesse modelo?

A questão não é abstrata. No Brasil, há mulheres indígenas cujo modo de carregar, alimentar, socializar e transmitir cultura para seus filhos é radicalmente diferente do que os manuais descrevem, e cujos filhos se desenvolvem de maneiras que esses manuais não conseguem avaliar com precisão. Em muitas culturas amazônicas, o cuidado de uma criança não é responsabilidade exclusiva da mãe biológica. É distribuído, entre avós, tias, irmãs mais velhas, outras mães da aldeia. Esse modo de cuidar tem nome na literatura antropológica: alloparenthood, ou cuidado aloparental. Mas raramente aparece como dado positivo nas avaliações de desenvolvimento que usamos no Brasil.

O que o cuidado distribuído produz

Há pesquisadoras que argumentam que o cuidado aloparental pode oferecer à criança algo que a díade exclusiva não oferece com a mesma intensidade: diversidade de vínculos de confiança desde os primeiros meses. A criança que cresce sabendo que pode ser consolada por várias figuras diferentes talvez desenvolva uma certa flexibilidade afetiva que o modelo ocidental de apego não hierarquiza como valor.

Isso não significa que o apego seguro com a figura materna seja irrelevante, a literatura é suficientemente robusta para sustentar sua importância. Significa que pode haver outros caminhos para o desenvolvimento emocional saudável, e que nossa incapacidade de reconhecê-los diz mais sobre os limites dos nossos instrumentos do que sobre as crianças que eles não conseguem ver.

Violência, território e desenvolvimento

Março traz o Dia da Mulher, e há uma dimensão que precisa ser nomeada: mulheres indígenas no Brasil não exercem a maternidade em condições de equidade. A violência contra povos originários, invasão de territórios, garimpo ilegal, ausência de serviços de saúde adequados, afeta diretamente as condições em que mães criam seus filhos. Uma criança que cresce em território ameaçado, que vê adultos de referência sob estresse crônico, que experimenta deslocamentos forçados, essa criança tem um perfil desenvolvimental que nenhum instrumento padronizado consegue capturar inteiramente.

É razoável supor, a partir do que sabemos sobre o impacto do estresse tóxico no desenvolvimento infantil, que a violência estrutural contra povos indígenas produz efeitos desenvolvimentais de longo prazo nas crianças. Mas há pouca pesquisa brasileira sistemática sobre isso. O que existe são relatos de profissionais de saúde e de educadores que atuam nesses territórios, relatos que não entram nas bases de dados, mas que descrevem realidades que a psicologia do desenvolvimento mainstream ainda não incorporou de modo adequado.

Uma psicologia que aprende com o que não conhece

O mês de março convida a uma reflexão honesta: a psicologia do desenvolvimento que ensinamos nas universidades brasileiras é suficientemente brasileira? Os modelos que usamos para avaliar vínculos, cognição, linguagem e comportamento social foram construídos, em sua maior parte, com populações de países do Norte global, de classes médias urbanas, com determinadas configurações familiares.

Aplicá-los sem ajuste a crianças indígenas, quilombolas, ribeirinhas, e às suas mães, não é neutralidade científica. É etnocentrismo disfarçado de protocolo. O primeiro passo para uma psicologia mais honesta não é ter todas as respostas. É saber, com clareza, para quem as perguntas foram feitas.

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