Todo começo de ano letivo produz, em alguma medida, um pequeno drama. A criança que chora no portão, o adolescente que acorda sem disposição, a família que interpreta resistência como preguiça, e a escola que, não raro, recebe esse corpo relutante como problema de comportamento a ser corrigido. Mas o que está sendo comunicado nesse momento?
A psicologia do desenvolvimento oferece aqui uma perspectiva que não costuma chegar às reuniões de coordenação pedagógica: resistência escolar raramente é simples oposição. Com frequência, ela é linguagem. A criança que chora no portão pode estar expressando algo sobre separação, sobre pertencimento, sobre o que aconteceu nas férias, ou sobre o que ela antecipa que vai acontecer na sala de aula.
O vínculo com a escola como objeto afetivo
Winnicott nos ensinou que o mundo externo não é apenas cenário, ele é habitado afetivamente. A escola, para uma criança, não é uma instituição abstrata. É um lugar que tem cheiro, tem faces conhecidas e desconhecidas, tem regras que podem fazer sentido ou não, tem um professor que olha de um jeito ou de outro. É, em termos desenvolvimentais, um campo relacional complexo.
Quando há ruptura nesse campo, uma mudança de turma, um conflito não resolvido antes das férias, uma professora que o aluno amava e que não está mais lá, a resistência ao retorno tem endereço. Não é desobediência. É luto, ou antecipação de algo doloroso.
O problema é que nossa cultura escolar tende a valorizar a adaptação rápida. O aluno que se integra sem fricção é visto como bem ajustado. O que demora, como perturbador. Invertemos com facilidade a direção do olhar: em vez de perguntar o que a escola precisa oferecer para que esse vínculo se restabeleça, perguntamos o que a família fez de errado nas férias.
O que o início do ano revela na Amazônia e nos territórios rurais
Em contextos de povos indígenas, quilombolas e populações ribeirinhas, a volta às aulas tem uma textura particular. Muitas vezes, o calendário escolar imposto não coincide com o calendário do território. O início de fevereiro pode cair no meio da roça, da pesca de piracema, do período de festas comunitárias que têm sua própria pedagogia.
Quando a criança Tukano ou Sateré-Mawé volta à escola após as férias, ela não está apenas retomando conteúdos, está negociando dois mundos que, com frequência, a escola trata como hierarquicamente organizados: o saber escolar acima, o saber do território abaixo. Esse é um custo desenvolvimental real. A criança aprende, antes mesmo de aprender a ler, que parte de quem ela é não cabe entre as paredes da escola.
Esse fenômeno tem sido discutido por pesquisadoras da educação intercultural no Brasil, embora ainda haja muito a compreender sobre seus efeitos longitudinais no desenvolvimento identitário dessas crianças. O que a prática clínica e os relatos de professores indígenas sugerem é que o custo não é trivial: há indícios de que a ruptura entre mundo doméstico e mundo escolar está associada, em certos contextos, a maiores taxas de abandono e a sofrimento psíquico que não chega com esse nome ao serviço de saúde.
O que o psicólogo pode fazer nesse momento
Se você atende crianças em início de ano letivo, seja em clínica privada, em CAPS infantil, em escola ou em unidade básica de saúde, vale uma pergunta antes de qualquer outra: o que essa criança está tentando dizer com essa resistência, e para quem ela está dizendo?
Às vezes a resposta está na dinâmica familiar, a separação de pais ocorrida nas férias, um luto não elaborado, uma mudança de cidade. Às vezes está na escola, uma situação de bullying, um professor que intimida, um banheiro que aterroriza. Às vezes está no próprio corpo da criança, que cresceu nas férias e não sabe ainda quem é nesse novo tamanho.
O recomeço do ano letivo é um momento de avaliação informal, não formalizada, que qualquer profissional atento pode aproveitar. Não para diagnosticar, mas para ouvir. A escola que acolhe a resistência como dado clínico, em vez de desvio disciplinar, é a escola que, paradoxalmente, diminui essa resistência ao longo do tempo.
Fevereiro não é só calendário. É também o retorno de uma relação que, para muitas crianças, nunca chegou a ser segura o suficiente para ser saudada com alegria.
Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.