O Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril, acumula décadas de tensão sobre o que deveria ser comemorado e o que deveria ser confrontado. Para a psicologia brasileira, esse dia deveria ser, mais do que celebração, ocasião de balanço honesto. Uma pergunta incômoda: o que o nosso campo, efetivamente, construiu para que crianças e adolescentes indígenas tenham acesso a saúde mental de qualidade?

A resposta honesta é: pouco. E esse pouco está distribuído de modo desigual, concentrado em núcleos acadêmicos, em pesquisas que raramente chegam à prática, em iniciativas individuais de profissionais comprometidos que atuam em condições precárias, longe de qualquer política sustentável.

O que falta na formação

A grade curricular dos cursos de psicologia no Brasil, em sua maioria, não inclui, ou inclui de modo superficial, conteúdos sobre psicologia indígena, etnopsicologia, saúde mental em contextos de diversidade cultural, ou história dos povos originários. Um psicólogo formado no Brasil pode terminar cinco anos de graduação sem nunca ter lido sobre os processos de desenvolvimento em populações indígenas específicas, sem ter refletido sobre como os conceitos que usa foram construídos, e para quem.

Isso tem consequências práticas. O profissional que chega a um DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) sem essa formação não está mal-intencionado, está desequipado. E o dano que um profissional desequipado pode causar, ainda que com as melhores intenções, é real: diagnósticos equivocados, intervenções que ignoram a dinâmica comunitária, abordagens que reforçam a ideia de que o modo de vida indígena é problema e não recurso.

O que a história da psicologia no Brasil tem a ver com isso

A psicologia chegou ao Brasil como projeto colonial, em certa medida. As primeiras aplicações de instrumentos psicológicos em populações não europeias no país tinham, com frequência, propósito classificatório e hierárquico, medir diferenças para justificar desigualdades. Esse passado não está encerrado. Ele persiste na resistência do campo em reconhecer epistemologias não ocidentais como válidas, na dificuldade de construir parcerias horizontais com comunidades indígenas, na insistência em levar "a psicologia" aos territórios em vez de ir aos territórios para aprender.

Não estou afirmando que os conceitos da psicologia ocidental não têm valor para populações indígenas. Estou afirmando que seu valor é parcial, e que a parcialidade precisa ser reconhecida, e compensada com humildade, com escuta, com construção conjunta de ferramentas que façam sentido para aquele contexto específico.

Crianças, território e saúde mental

O que sabemos, com razoável consistência, é que a saúde mental de crianças indígenas está intimamente ligada à integridade do território. Comunidades que tiveram seus territórios demarcados e protegidos mostram, nos relatos de profissionais que nelas atuam, dinâmicas de saúde muito distintas de comunidades sob constante ameaça de invasão ou expulsão. O território não é apenas recurso econômico, é estrutura psíquica. É o chão onde o desenvolvimento acontece, onde as referências culturais que dão sentido à vida da criança estão ancoradas.

Quando o território é ameaçado, o desenvolvimento é ameaçado. Isso deveria ser dado central da psicologia do desenvolvimento brasileira, não nota de rodapé.

O dia 19 de abril, nos próximos anos, pode ser data de ativismo institucional genuíno do CFP, dos CRPs, das universidades. Não apenas de post nas redes sociais. A pergunta concreta que fico deixando: quantas vagas de residência em psicologia, no Brasil, têm como campo de prática as comunidades indígenas? A resposta indica onde, de fato, estamos.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.