O Dia das Mães, no segundo domingo de maio, é uma data que a cultura celebra com flores e cartões. Para uma parte significativa das crianças brasileiras, ela é também ocasião de ausência, de uma mãe que morreu, que foi embora, que está presa, que não pôde ficar. Não há dado preciso sobre quantas crianças no Brasil crescem sem a figura materna por razões diversas, mas qualquer clínico que atenda crianças sabe que esse número não é pequeno.

O que a psicologia do desenvolvimento tem a dizer sobre essas crianças? Mais do que muitos imaginam, e ao mesmo tempo, menos do que seria necessário.

O que sabemos sobre perda precoce

A perda da figura materna em idade precoce é considerada, na literatura do desenvolvimento, um fator de risco para uma série de desfechos, não porque seja determinante, mas porque altera o contexto no qual o desenvolvimento ocorre. O que a criança perde não é apenas presença afetiva. Perde um espelho: alguém que a reflete de volta para si mesma, que nomeia emoções, que regula arousal nos momentos de angústia, que transmite uma narrativa sobre quem essa criança é e de onde vem.

Winnicott escreveu sobre a importância da mãe suficientemente boa, não a mãe perfeita, mas a que está presente o suficiente para que o desenvolvimento ocorra com segurança. Quando essa presença é interrompida abruptamente, o desenvolvimento não para, mas reorganiza. A criança encontra outros recursos, outras figuras, outras estratégias. Às vezes com custo elevado.

Luto infantil e suas linguagens

Crianças pequenas não elaboram luto do modo que adultos imaginam. Uma criança de dois anos cuja mãe morreu não chora de modo contínuo e articulado. Ela pode procurar a mãe de formas que parecem não ter sentido, chamar pelo nome no meio da brincadeira, esperar na porta, perguntar quando ela volta. Ou pode apresentar regressão: voltar a comportamentos que havia deixado para trás, como enurese, dificuldade de dormir, alimentação que piora.

A criança mais velha, de seis a dez anos, pode carregar o luto de modo silencioso, aprendendo cedo que demonstrar tristeza gera desconforto nos adultos ao redor, que é mais seguro parecer bem. Essa criança frequentemente apresenta o luto na escola, nos comportamentos, muito depois do evento, porque o sistema nervoso processa em seu próprio tempo, não no tempo que os adultos gostariam que fosse.

Maternidade distribuída como resposta, e seus limites

Em muitos contextos brasileiros, a ausência da mãe biológica é respondida com uma rede: avó, tia, madrinha, vizinha. Essa rede tem valor real, e a pesquisa sobre figuras de apego múltiplas sugere que a criança pode desenvolver vínculos seguros com figuras além da mãe biológica. O apego não é exclusivo; pode ser plural.

Mas há condições para que essa rede funcione como suporte e não apenas como contenção de emergência. A figura que assume o cuidado precisa ter disponibilidade emocional, o que é difícil quando ela própria está em luto, em sobrecarga, em condições materiais precárias. Uma avó que perdeu a filha e agora cria os netos não está apenas cuidando: está elaborando luto enquanto cuida. Essa sobreposição de demandas raramente recebe atenção clínica adequada.

O que os serviços precisam oferecer

Crianças em luto por perda materna raramente chegam ao serviço de saúde mental com esse enquadramento claro. Chegam com queixa escolar, com comportamento, com sintoma somático. O rastreamento sistemático de perdas significativas no histórico da criança, especialmente perda materna, é básico e raramente feito.

O que ajuda, o que a literatura e a experiência clínica sugerem: constância de figuras de cuidado; espaço para nomeação do luto sem urgência de resolução; narrativa sobre a mãe que a criança perdeu, quem ela era, por que não está mais, o que ela deixou. Crianças precisam de história. A mãe que não está mais presente pode continuar existindo como narrativa, e essa presença narrativa tem valor no desenvolvimento da identidade da criança.

O Dia das Mães deveria nos lembrar também dessas crianças. Não por pena, por compromisso de que a clínica as alcance.

Conteúdo editorial e informativo. Não é aconselhamento clínico nem substitui atendimento profissional.